Mostrando postagens com marcador eu acho que. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador eu acho que. Mostrar todas as postagens

sábado, 3 de abril de 2010

Filme vs Filme

Perdoe-me por fazer comparações deste tipo, e tenho plena consciência de que posso estar cometendo uma grande injustiça. Mas este é um daqueles posts que se fez necessário assim, desse jeito mesmo.

Há um tempinho planejei escrever sobre o "Preciosa", um dos filmes mais falados do ano. A história, baseada na novela Push de Sapphire, é sobre uma garota - Clareece Preciosa Jones - analfabeta, pobre e muito acima do peso, mal-tratada e violentada pela mãe abusiva e, se não bastasse, esperando o segundo filho de seu próprio pai. A simples sinopse é de lhe apertar o coração, ainda mais se lembrarmos que garotas como Preciosa existem por todo o mundo, ás vezes em condições ainda piores.


Porém - já que sempre há um porém - o filme em si não satisfaz.

É verdade que Mo'Nique brilha no papel de mãe de Preciosa, liberando sua agressividade de todas as formas humanamente possíveis. E que Gabourey Sidibe também faz um trabalho muito bom interpretando a adolescente em questão. De fato, os atores e personagens não fazem parte da lista de problemas e faltas do filme - não, não.

O problema principal foi o diretor - Lee Daniels - que, ao que me parece, resolveu que não queria deprimir tanto assim o público, o procurou de várias maneiras mascarar e suavizar a história. Observamos ao longo do filme, então, piadinhas fora de hora e uma trilha sonora eclética, que quase nunca combina com o que se vê. Também, uma irritante incerteza no enquadramento da cena e no uso da câmera - estamos em um filme indie francês, e então em um documentário do Michael Moore, e então numa novela das sete, e então em um filme hollywoodiano convencional demais, e então com uma hand-in camera fugindo do monstro Cloverfield enquanto este destrói a cidade de Nova Iorque.  Há cortes e ângulos bobos, que acabam, quando no todo, destruindo o tom do filme. É tudo muito incerto para podermos definir um humor, entende? Tentaram ser piedosos com o público, mas não foram bem sucedidos.

Essa é a minha opinião, se bem que este é um daqueles filmes que você simplesmente gosta ou não gosta. E, por não haver um meio termo aparente para este assunto, acabei entrando em uma longa discussão com amigos - que por um acaso, gostaram do filme. Fiquei, durante muito tempo, me perguntando se não estava de fato exagerando, me prendendo a detalhes, e que "Preciosa" é um daqueles filmes que se deve ver com o coração apenas e eu havia errado ao pensar que poderia assisti-lo com os olhos simplesmente.

Mas não. Não, não, não. Não, não. Não há nada de errado com o meu (carinhosamente apelidado de) "senso crítico exagerado" ou com as minhas "opiniões exigentes demais". Sabe como eu sei? Ora, pois eu vi o filme argentino "O segredo de seus olhos" e ele é, de certa forma, tudo o que Lee Daniels quis que "Preciosa" fosse e acabou não sendo. 

Ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, "O segredo de seus olhos" é um tanto quanto impiedoso. Porém, bem sucedido. No filme baseado no livro La pregunta de sus ojos de Eduardo Sacheri, o ator Ricardo Darín faz o papel de Benjamín Esposito, funcionário público aposentado que resolve escrever um romance sobre um horrível caso criminal que investigou enquanto ainda trabalhava no Tribunal Penal de Buenos Aires, vinte anos antes.

Juan José Campanella, o diretor, faz um trabalho excelente ao tentar não deprimir tanto assim o público. A história, tensa e agonizante, é muito bem amarrada e conduzida de tal forma que... uau. O bom humor presente é de bom gosto e pertinente. As piadas - de fato engraçadas - estão sempre onde precisam estar. A alternância entre os enquadramentos e o uso da câmera são compreensíveis e envolventes - combinam com as cenas e com os humores da história. Campanella é um gênio quando se trata de criar ângulos. Os atores são todos talentosos, e os personagens bem construídos. As maquiagens envelhecedoras são muito convincentes. A trilha sonora é delicada e - principalmente - pertinente.

É um filme de grande qualidade, verdadeiro merecedor de seu Oscar.

Portanto - se quer saber a minha opinião mais honesta - não perca seu tempo assistindo um filme pesado e triste que poderá não lhe satisfazer por conta de falhas de direção. Se quiser mesmo assistir um filme pesado e triste, assista "O segredo de seus olhos".

segunda-feira, 15 de março de 2010

Fomos, então voltamos

Sabe, sempre procuro no meu dia-a-dia provas de que as coisas definitivamente mudam conforme a passagem do tempo. É um conceito que precisa de constantes confirmações, já que a relatividade da questão, e a constante dúvida que a ronda, são de fato irritantes. Tenho, porém, em minhas mãos orgulhosas, uma prova concreta e material da discreta mudança das coisas através da passagem do tempo: um certificado. Certificado do quê? Oras, de que o trabalho "Pelas ruas de Angola - uma análise do livro Os da minha rua de Ondjaki", estava exposto na FEBRACE - Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, durante essa semana que passou.

Quer mais explicações? Bom, acho que basta lhe dizer que, há exatamente um ano, tal trabalho ainda não estava tampouco previsto. Ou então, que a feira em questão me era desconhecida até final de junho, também do ano passado. Ou ainda, que até o começo de dezembro não havia quase nenhuma expectiva de classificação e participação, menos ainda de premiação - pois é, nosso trabalho foi premiado pela Microsoft Brasil e pelo Centro Paula Souza, se é que minha mãe ainda não lhe contou...

Tudo nos veio tão rápido que ainda não houve tempo para processar todas as informações. Existem, porém, algumas coisas muito bem esclarecidas desde o começo de tudo: a FEBRACE é algo grande, extraordinariamente importante. Enquanto em meu estande - ao lado de Ana, minha fiel companheira - toda a grandiosidade da situação, por assim dizer, se tornou ainda mais clara. Afinal, do outro lado do nosso corredor, havia pessoas de Maranhão e Jaguaribe. Atrás de nós, gente vinda de Brasília e Ceará. Nos corredores próximos, alunos de escolas de Manaus, Rio de Janeiro, Porto Alegre, pequenas cidades do interior de Minas. De todos os cantos do Brasil, jovens apresentavam seus projetos, ideias que desenvolveram com paixão e persistência. Percebia-se uma marcante preocupação com o futuro e com a sociedade, em resolver diversos problemas que também os atingem, e de certo modo consertar o mundo. E além de tudo, uma forte vontade de inclusão social, assistência e justiça. Projetos e soluções das mais variadas, todos juntos na mesma tenda.

Mas, claro, tudo isso significa algo maior. Estávamos todos ali demonstrando o poder criativo dos jovens, que com coragem - e um grande incentivo de seus orientadores - usaram a ciência (e tudo o que esta significa) para a construção de um mundo melhor. Pois afinal, é isso que essas feiras de fato representam: um incentivo à criação, à pesquisa e ao descobrimento de coisas que tornariam nosso mundo melhor. Jovens interessados, participativos, apaixonados e determinados, participando ativamente do mundo que os cerca.

Hoje, porém, a rotina voltou ao normal e olhe, não vou lhe negar que magoa um pouco ter de encarar a dura verdade tão cedo de manhã, e perceber que esses jovens determinados e interessados, infelizmente, não são a maioria. Mas já é gratificante o bastante pensar que, pelo menos, eles existem, espalhados por todo este enorme país, incentivando, cada um de uma forma, a ciência e a participação na sociedade, criando uma nova geração de cientistas e pesquisadores, cujas mãos manipulariam, até mesmo definiriam, o futuro de todo o planeta.

A continuidade destes incentivos é importante, assim como a perpetuação da curiosidade e da  força de vontade.



Qualquer um que lê este blog, saiba: o mérito não vem só da vitória; a experiência não brota do nada; a paixão pode o levar bem longe; a coragem é uma virtude e o otimismo, um dom. E essas são só algumas das milhares de coisas que aprendi durante a semana passada.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Se curiosidade matasse...

... eu não havia nem nascido. Confirmei isso hoje mesmo, assistindo "O Amor Segundo B. Schianberg", filme brasileiro atualmente em cartaz, do diretor Beto Brant. 

Inspirado no personagem Benjamin Schianberg, do romance Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios de Marçal Aquino, o filme traz a convivência de uma vídeoartista e um ator, durante três semanas em um apartamento em São Paulo, nas idas e vindas da paixão e na construção do amor. Montado e filmado como um verdadeiro reality show, com câmeras espalhadas pelo apartamento, gravando todos os momentos dos dias da paulistana protagonista com zooms óbvios e ângulos estranhos, é todo recortado e segue uma forte tendência nonsense, que piora e se agrava ao longo do filme. Os diálogos são sempre plausíveis, as discussões esperadas, e, portanto, os personagens são simplesmente  humanos.

Fui levada ao cinema pela curiosidade. Observar a construção do amor em um ambiente tão familiar é algo de fato curioso. Também, pensar em como uma história que se passa inteira em um apartamento, pode se desdobrar no pouco espaço que tem e nas circunstâncias em que se encontra, e ainda apresentar um bom resultado. 

Enganei-me porém. Fora a mais pura e trivial curiosidade que me manteve na sala até o final da sessão, não há mais nada no filme. Se descartarmos a vontade que temos de descobrir o que e como a vida dos outros acontece, principalmente enquanto não estamos olhando, não há nada no filme. Nada. 

É tudo muito óbvio apesar de seu nonsense; tudo muito oco apesar das constantes discussões e criações artísticas; tudo muito humano apesar da forte presença da arte na vida dos dois personagens.  

 Infelizmente, este filme eu não recomendo. 

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Os monstros também choram

Onde vivem os monstros é um bom livro. Escrito e ilustrado em 1963 por Maurice Sendak, publicado aqui no Brasil pela Cosac Naify em outubro do ano passado, se tornou não apenas o livro infantil favorito de Barack Obama, mas também conquistou milhares de pessoas ao redor do mundo. Pessoas de todas as idades. Ponho a culpa de todo esse sucesso nas ilustrações maravilhosas e na história comum na vida de todos que, em algum momento, precisaram de um abraço.

Onde vivem os monstros é um ótimo filme. Dirigido por Spike Jonze, acompanhado de uma trilha sonora maravilhosa, com uma fotografia coerente mas ao mesmo tempo surpreendente e com a atuação de enormes bonecos reais com apenas suas expressões animadas por computação. Ultrapassa todas as fronteiras de adaptações cinematográficas da literatura. É uma verdadeira releitura da obra, quase uma reinvenção. Que deu muito certo, se você quer saber a verdade.

Max e o monstro Carol, em cena do filme Onde vivem os monstros.

Max, menino solitário e imaginativo, está sempre a procura da atenção de sua irmã mais velha e de sua mãe. Inventa brincadeiras e histórias malucas, perde-se em suas fantasias e tudo o que realmente quer é ter companhia. É um garoto pequeno, não sabe lidar muito bem com sua carência e acaba fazendo coisas erradas - ás vezes muito erradas mesmo - para conseguir o carinho que deseja. Por causa de uma de suas apelações malcriadas, Max é mandado pela mãe para o seu quarto, sem jantar. Magoado e fantasiado de lobo, foge, sobe no seu veleiro e viaja por dias e noites até encontrar a ilha onde vivem os monstros. Proclamado rei pelas criaturas que encontra - os monstros, obviamente - Max começa bem o seu reinado, até que percebe a verdadeira dificuldade em manter todos satisfeitos o tempo todo e, também por estar com saudades de sua família, decide voltar para casa.

Quando dito assim é tudo muito óbvio. Perceba que nem me incomodei por lhe contar o fim da história. É porque não é o que verdadeiramente importa. Pelo menos não neste post.

Não pude evitar me identificar com Max, ou com alguns dos monstros - pois estes podem até ser vistos como representantes dos sentimentos do garoto. Não pude evitar simpatizar  com o  ser que nunca é ouvido, com a criatura imprevisível que quer destruir/devorar as coisas/pessoas de vez em quando, com o monstro que se esconde no canto da cena e quer apenas fazer a coisa certa. Mas principalmente, com a criança solitária que quer apenas companhia, e que se decepciona constantemente com a impossibilidade da realização de seu simples desejo. Claro. Não se pode negar que esta sensação é comum em todos. Todos que também gostariam de ser 'rei' para proclamar "Deixe que a bagunça selvagem comece!", todos que desejam possuir um enorme escudo antitristeza, e todos que se sentem invadidos pela solidão de vez em quando. E a julgar pela quantidade de pessoas saindo da sala do cinema com os olhos vermelhos de choro, não fui a única satisfeita com a familiaridade que encontrei na história e o conforto em saber que até mesmo os monstros sentem medo e solidão ocasionalmente. Até monstros choram de tristeza.

Todos podem se encontrar em algum pedaço da história. Assistam o filme Onde vivem os monstros.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Escolha feita

5 de outubro. Tenho até marcado em minha agenda o dia em que decidi parar de comer carne. Era uma segunda-feira, portanto havia tido aula geografia naquela manhã. Por que isso é relevante? bom, pois naquela aula nós assistimos o documentário Home, de Yann Arthus-Bertrand (para os interessados, o filme se encontra inteiro no YouTube. Para acessá-lo, clique aqui) Ainda um pouco atordoada com as verdades apontadas pelas imagens maravilhosas que compõe o documentário, decidi - enquanto andava de volta para casa - que não poderia calar-me diante do mundo, que naquele momento parecia balançar por um fio. Fazer algo, sim, sobre tudo - era exatamente isso o que queria - mas como? Então pensei : por que não parar de matar animais? 

Foi uma decisão fácil de ser tomada. Uma refeição sem carne nunca me foi uma refeição perdida. Nunca sofri com a necessidade de comer carne. Assim, calculando quais seriam as vantagens do vegetarianismo, e comparando-as com as vantagens do carnivorismo, cheguei a uma conclusão satisfatória. Meu maior problema foi  ( e francamente ainda é) contar aos outros sobre a minha nova posição ambientalista. É impressionantemente resistente o - chamarei de - preconceito que se tem contra vegetarianos. O que não faz nenhum sentido, afinal (desculpe a grosseria) muitos dos que mais criticam não fazem nada pela parte que os toca. A não ser, claro, sentar confortavelmente em suas casas, ligar a teve e lamentar pela tristeza do Haiti. Que coisa, não?! 

Resolvi justificar-me, oficialmente e de uma vez só. Uma coleção de argumentos que fazem muito sentido para mim. Se concorda ou não, isso é com você. Se quiser me contar se concorda ou não, seja polido e use o espaço para comentários do próprio blog. Não se acanhe, mas não exagere - estou dizendo isso pois já vi todo tipo de nomes feios direcionados à vegetarianos de boa vontade. E isso não é o tipo de coisa que quero para mim. Começarei pelo básico:


- Para os animais:
É verdade que pelo menos 97% dos vegetarianos dizem que não comem carne para evitar o  demasiado, e ao mesmo tempo desnecessário, sofrimento de animais. Também é verdade que todos radicalmente contra o vegetarianismo falam que isso é besteira, que a proteína animal foi a chave para levar a raça humana até o topo da cadeia e continuar essa alimentação não é mais do que natural. Não nego que a proteína tenha feito a diferença, mas deixe-me contar uma coisinha: o mundo mudou, as coisas mudaram. Carne não era uma produção industrial, agora é. Não se comia carne nessa quantidade ridícula, agora se come. Milhares de animais não eram obrigados a viver no próprio excremento, em lugares que não são muito maiores do que a sua sala de estar. Também não eram separados de suas famílias, maltratados, com uma alimentação baseada em antibióticos fortíssimos. Aves têm a ponta de seus bicos cortados, porcos têm seus dentes arrancados e vacas, seus rabos cortados. Tudo isso sem nenhuma anestesia. Vivem doentes, e quem os come é um grande candidato a contrair tais doenças, como salmonella e a doença da vaca-louca. Para melhorar as coisas, muitos deles continuam conscientes enquanto suas gargantas são cortadas, e continuam assim enquanto sangram até a morte. 
Isso não é natural. Isso não é necessário. Isso não tem que fazer parte da sua dieta diária. 
Proteína é importante para a saúde do ser humano, porém comer carne em todas as refeições é um hábito desnecessário. Em média, um comedor de carne mata 100 animais por ano. Poderia tranquilamente matar apenas 90, ou até 80, se estivesse disposto a parar de ser um pouco egoísta e olhar para os fatos verdadeiros de vez em quando.  Animais  são  criaturas muito sensíveis e inteligentes, não temos o direito de tratá-los dessa forma só porque gostamos de churrasco. Além do mais, todos sabemos que 'fiscalização para o controle da crueldade' é uma proposta ineficaz e insignificante. O que seria isso? Certificar que todas as vacas recebem um tapinha carinhoso no dorso antes de ter sua garganta aberta a sangue frio? Não há como remediar a situação, é preciso que tudo isso acabe, e apenas os sete bilhões de seres humanos que vivem nesse mundo têm o poder de controlar isso. Alimentar-se de outros animais é natural em todo o reino animal, não nego. Porém, produzir carne nessa escala exagerada e em tais condições precárias, nunca poderá ser chamado de "natural".


- Para o mundo:
Aquecimento Global é um fato. Não, não é apenas um boato criado por um desocupado e sustentado por ignorantes seguidores fiéis do senso comum que simplesmente precisam acreditar em tudo que vêem para encontrar um sentido na vida (lembra quando eu disse que já vi todos os tipos de nomes feios direcionados a vegetarianos de boa vontade? estes não são nem os piores).
Economizar água e energia, reciclar, andar de bicicleta e usar transporte público, andar mais, apoiar o reflorestamento, energia renovável. Todas idéias muito boas. Mas não adianta se apoiar em apenas uma para o resto de sua vida. É preciso fazer um pouco de cada, talvez até mais do que apenas 'um pouco', e além do mais, diminuir o consumo de carne! Sim, claro! 
Uma parte de todo aquele excremento em que os animais são obrigados a viver é desviada para os córregos mais próximos, poluindo-os em toda a sua extensão - leve em consideração que um porco, por exemplo, excreta por dia 8 vez mais do que uma pessoa. Com essa quantidade de fezes produzida seria possível reconstruir  São Paulo em tamanho real em apenas alguns meses. A questão do gás metano pode parecer uma piada, mas é um fato, um fato mais poderoso que o carbono e ainda mais perigoso do que todos os carros, trens e aviões somados. Extensões marítimas gigantescas são devastadas e o número de espécies de peixes  que correm risco de extinção só aumenta todos os dias. Matadouros e criadores de animais produzem 130 vezes mais lixo do que os humanos, lixo contaminado e tóxico. Também, para produzir um quilo de carne se gasta em média 15,5 mil litros de água. Para um quilo de cereal, gasta-se apenas 1,3 mil litros - ao invés de comer um McDuplo você poderia tomar 34 banhos. Mais ou menos 50% da agricultura é voltada para a produção de ração para os animais. Na Austrália, 58% das terras é voltada ou para a agricultura ou para pastagem de animais; nos Estados Unidos,  80% das terras. Na Amazónia, existem 35 bilhões de cabeças de gado e 22 milhões de habitantes. Agora, lembre-se das aulas de Geografia: as dicussões sobre o uso o risco dos agrotóxicos e  muito produtos químicos nas plantações, os danos que os enormes latifundios com a produção automatizada trazem  para o nosso mundo. 50% dos grãos produzidos, da água disperdiçada e então poluída, das gigantescas áreas desmatadas por dia - tudo isso para alimentar o seu bife, enquanto milhões de pessoas morrem de fome ao redor do mundo. 
Não diga que ao mudar para uma dieta vegetariana essas coisas iriam apenas piorar. Não haveria uma demanda tão grande, nem uma necessidade de uma super rápida produção. Milhares de hectares poderiam ser utilizados para o cultivo de alimentos que serviriam de comida para pessoas, e não para animais que virarão comida. O desmatamento poderá não acabar de vez, mas pelo menos desaceleraria um bocado significante. E, como os vegetarianos são amigos das produções orgânicas e comércio local, a utilização de agrotóxicos e produtos químicos apenas diminuiria.


- Para as pessoas e/ou você mesmo:
É na gordura animal que se encontra o colesterol ruim. Com uma dieta vegetariana, evita-se diversos tipos de câncer, doenças cardíacas, obesidade, diabetes e derrames. E, é mais natural do que cirurgias e medicamentos  para se evitar e/ou curar as doenças anteriormente citadas. Mas esse não é o único motivo...
Eu sei que é dificil imaginar-se num mundo com 7 bilhões de pessoas e ainda se sentir importante, porém é muito importante nunca esquecer de que o que somos, na verdade, não se passa de um enorme grupo de indivíduos. Todas as nossas ações fazem a diferença, todas as escolhas que fazemos afeta, de um jeito ou outro, todo o mundo. É complicado as vezes aceitar essa verdade, já que ela vem com uma responsabilidade gigantesca que nem todos estão dispostos a aceitar. Porém, não me venha com este papinho  de que uma pessoa vegetariana a mais não faz a mínima diferença. São, em uma média muito superficial, 400 milhões de pessoas que escolheram não comer carne no mundo. Existem 1 bilhão de pessoas que não comem por não haver opção. 
Dizer que não faz a diferença, pois a maioria ainda come carne, é só desculpa. Não adianta esperar que os outros façam por você, não adianta apontar para o outro que também não faz nada  e se confortar pois não é o único parado, não adianta justificar a sua falta de ação com falta de esperança, não adianta falar que é muito pequeno  e a sua parte é tão insignificante que nem vale a pena, não adianta chamar os vegetarianos de hipócritas loucos   por acreditarem no poder do povo, não adianta falar que tudo isso é natural, não adianta julgar aqueles que fazem algo para mudar as coisas enquanto você mesmo não tem nada nos seus bolsos para usar de contra oferta, não adianta mascarar a transparente covardia com críticas e caretas, comentários e ignorâncias,  e não se responsabilizar pela sua parte única e individual.
Pode ser que 100 animais salvos por ano seja pouco, mas é o que está nas minhas mãos. É melhor salvá-los do que colaborar com a matança. As mudanças em casa já são aparentes: minha mãe, ao invés de comprar 6 bifes, compra 4, se tanto; meu pai poderia comprar carne para alimentar 5, mas só precisa para alimentar 2, de vez em quando ainda. Eu faço parte de um sistema de compensação, o que eu não como outra pessoa come no meu lugar, e o que esta pessoa comeria é poupado até a próxima refeição - e também, não é só porque eu não como o meu bife que você vai comer dois, certo? 
Li uma vez em algum lugar: enquanto vocês, que comem carne e criticam os vegetarianos, não me mostrarem uma solução mais eficaz do que o vegetarianismo para curar o mundo, sustentada por fatos e argumentos tão concretos quanto os meus, continuarei com o orgulho a minha dieta e a dividí-la com que quiser. 


"É muito tarde para ser pessimista"



Ps: há um novo documentário, narrado por Sir Paul McCartney, sobre vegetarianismo. A matéria da Uol acompanha um trailer oficial. Eu recomendo que vejam, principalmente se precisam de mais alguns argumentos a favor da vida verde. Porém, as imagens são fortes, afinal, é um documentário sobre os matadouros de animais... Assista, mas não se force até o fim - e não se culpe se tiver que parar antes do quinto minuto. Clique aqui. 

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Sensibilidade ou cultura?

Agora em novembro assisti nas aulas de Ensino Religioso, por algum motivo, o filme baseado no best-seller O menino do pijama listrado. Todas as meninas choravam, enquanto os meninos riam de seus olhos inchados, e foi então que eu ouvi tal declaração:
"vocês meninos não são sensíveis o bastante para entender a sensibilidade deste filme!"

Fiquei encucada: não achei nada de nada sensível. É um filme muito bonito, é verdade, e uma história bem contada e muito bem amarrada, apesar de bastante óbvia. Mas, sensível? Não sei se este é o rótulo mais preciso.

Lembro-me que assistimos este filme mais ou menos na mesma época do incidente do restaurante coreano aqui em São Paulo, sabem? Em que 60k de carne de cachorro e gato foram apreendidos pela polícia em um restaurante coreano. Um crime absurdo!

Agora, por quê?

Porque a imagem do cachorro, em nossa cultura, é equivalente a imagem de um ser humano. Não é? O cachorro, afinal, é o melhor amigo do homem, certo? É apenas dá-lo um nome e pronto, cria-se um vínculo afetivo breve, porém fortíssimo. Além do mais, quantos de vocês já não tiveram, quiseram ter ou ainda têm um cachorro? Quando se ouve dizer que se comiam cachorros, sua memória não se direciona automaticamente ao cachorro mais próximo de você, ou seja, aquele que tem o seu carinho. A imagem que se tem, na maioria dos casos então, não é semelhante a de se alimentar de um primo ou mesmo irmão?

Agora, voltemos aquele ponto de antes, a sensibilidade dos best-sellers.
Já leu Marley & Eu? Se não, tenho certeza que viu pelo menos  a capa. É um labrador, certo?, pequenininho, com cabeça de lado, olhos redondos e orelhas caídas. Este é o Marley. De acordo com a cultura da sociedade em que você vive, ele é fofo. Muito fofo. E tem um nome, portanto é um "alguém" de verdade. Então é claro que - cuidado, spoiler - quando Marley fica velho e naturalmente caminha em direção à luz, você chora. É o melhor amigo do homem, que se assemelha de alguma forma com a sua realidade, e que morre. (E a morte também é definida culturalmente como uma coisa trágica, merecedora de lágrimas e tristezas, não é?)

A mesma coisa acontece com O menino do pijama listrado. São crianças, pôxa vida. E o pior (cuidado, spoiler) - reinterprete as suas lágrimas: é muito provável que tenha chorado por que o garoto alemão  morreu, já que o judeu obviamente morreria no final. São duas crianças pequenas, portanto são inocentes e apenas curiosas. É uma pena morrerem, já que eram somente crianças, certo? Será que não é por isso que chora?, pois são crianças, e há uma forte imagem angelical vinculada a juventude. Se nos apoiamos na questão da inocência, então, as lágrimas aumentam, pois "somem os motivos e justificativas" meramente plausíveis para o seus tristes fins.

Será que compreende o que digo?
Pois é uma característica cultural da sociedade em que você vive, leitor. Chorar lendo qualquer um destes livros não prova a sua sensibilidade, mas o seu mero senso de humanidade. E o seu grau de participação em sua cultura.

O que define a sensibilidade de uma história/literatura são fatores maiores e mais complicados e - no meu ponto de vista - altamente relativos. Aconselho-lhe a não se apoiar na lista dos mais vendidos para definir-se ou mostrar aos outros quão grande é o seu coração.
E, cuidado com as afirmações que faz.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Breve esclarecimento sobre literatura africana

Sempre me impressionou a rapidez com que as coisas mudam. Em março, por exemplo, não poderia imaginar que estaria aqui hoje, escrevendo este post. Mas já que mudam assim, sem termos o mínimo controle, simplesmente acompanhar é a nossa única opção.

Logo no começo do ano escolhi, como primeira opção, cursar o Projeto de Literatura Africana (de países lusófonos). Estranha escolha, muitos me falaram, às vezes com uma simples careta ao invés de palavras. Mas nada disso me incomodava, afinal fiz esta escolha por ter certeza do que quero para o meu futuro: estudar literatura. Todo e qualquer conhecimento que adquirir agora me trará benefícios depois. Percebi o quanto é difícil para as pessoas compreenderem e aceitarem uma produção cultural africana que seja mais que barulhos corporais e danças folclóricas. Foram inúmeras às vezes em que me encontrei diante de: “ah, e África lá tem literatura?”. Mas nada disso me atingia. A monografia que Ana e eu escrevemos para o Projeto, como um simples trabalho escolar, acabou se tornando uma atividade extracurricular. Fomos convidadas pela professora para tentar nos inscrever na FEBRACE. (Está lá, inscrito. Agora só nos resta esperar.) Esta possibilidade de continuação do trabalho fez com que muitas discussões e análises se fizessem necessárias, o que nos transformou em duas defensoras ferrenhas da literatura africana. Comentários e desprezo para com essa literatura já não são mais permitidos perto de nós, que com nossos humores costumeiros, fazemos questão de exibir o nosso incomodo. É difícil o ouvinte entender o porquê do sermão – e, por ter a ferramenta e finalmente, o tempo – decidi escrever-lhe e esclarecer tudo.


Desconsidere, antes de tudo, qualquer que seja a sua visão sobre literatura. Ignore, por alguns momentos, os “objetivos” que enxerga em qualquer produção literária. Pensar que livros são feitos somente para o divertimento do povo alfabetizado, para lhe servir de passatempo; escritos apenas por figuras excêntricas e reservadas, que gostam de questionar o mundo ao seu redor e lhe expor seus pensamentos íntimos, suas idéias e opiniões avançadas para as suas épocas; análise da sociedade; produtos feitos exclusivamente para o mercado – são todas visões parciais. Tipos idealizados de escritores foram criados, obedecendo tais objetivos. Paira um ar de classe média alta enquanto se pensa em literatura norte-americana. Da produção britânica, então, nem se fala! E é então que chegamos aos estereótipos africanos – vários países sofrem com problemas sociais, econômicos e políticos, e ainda há o bom e velho preconceito racial, para dar o toque final neste pacote de insensibilidades – que esbarram nas nossas imaginações e nos impedem de pensar em qualquer produção literária na África. Mas as coisas, obviamente, não são bem assim.


Angola, o país por nós estudado, fortaleceu a sua produção durante o período colonial, pois fez da literatura uma ferramenta de resistência, utilizando-a para a construção da identidade cultural angolana e na luta pela independência do país. Os intelectuais participavam efetivamente das guerrilhas, com armas nas mãos. Pepetela, intelectual angolano, fez de sua novela As aventuras de Ngunga uma ferramenta para a alfabetização e educação de guerrilheiros. Os "objetivos" da literatura angolana saem dos padrões por nós estabelecidos, e por isso pode nos parecer estranho uma produção literária feita para libertar um povo do regime colonial que os controla.

O escritor contemporâneo estudado foi Ondjaki, que nasceu após a independência angolana (1974) e, portanto não lutou em guerrilhas, mas escreve com um viés autobiográfico, narrando histórias de sua infância, indicando uma mudança na literatura angolana. Ao contrário do que se é dito, a literatura angolana pode sim ser considerada de muita qualidade, mesmo quando não relacionada com guerrilhas e lutas pela libertação. É quase um absurdo dizer que escritores angolanos podem apenas criticar e reinvindicar a situação social de seu país, sem poder inserir em seus textos, memórias e sentimentos. Ondjaki é uma prova viva disso.

Moçambique segue uma trajetória semelhante, pois também foi uma das últimas colônias portuguesas a se tornar livre.
A tese ainda continua. 30 páginas quase, com citações e uma bela formatação. Foi um longo, mas gratificante trabalho, que nos deu a possibilidade de escrever, hoje, um post em defesa à literatura africana. Não há mais justificativas para qualquer descaso ou desprezo; o básico lhe foi explicado. Não esperamos que se interesse por este assunto, assim como aconteceu conosco, mas peço pelo menos que perceba o que é a tal literatura africana, e o seu verdadeiro valor.
E não nos venha mais com comentários impertinentes.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O pior som da música

A montagem brasileira do musical A Noviça Rebelde, ainda em cartaz, já levou milhares de pessoas às salas de teatro do Rio de Janeiro e São Paulo. Adaptado do filme de 1965 (de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II) a peça remonta com fidelidade a história de Maria Reiner, ex-noviça, ao se tornar babá das sete crianças Von Trapp e se envolver na história de amor mais sincera de todas. O filme é deveras lindo, um dos meus favoritos de todos os tempos. Quem poderia esquecer, afinal, a graça de Julie Andrews no papel de Maria, sua harmonia com a personagem e – claro – a sua voz que traz às canções a paixão necessária. Julie, por si só, é o principal motivo do sucesso do filme, e nunca pensei que algo fosse capaz de estragá-lo. Até assistir a peça brasileira. Já sabemos que nada bom vem de adaptações, apenas talvez, quando estas juntam os originais com elementos exteriores, e conseguem criar uma coisa completamente nova. Então, podem até ser boas. O próprio filme é um bom exemplo, pois foi adaptado da peça da Broadway, que por sua vez foi baseada na vida real de Maria Reiner e Georg Von Trapp. Mas a montagem atual, bom, esta não se passa de uma adaptação mal sucedida mesmo...

Comecemos pelo começo: as músicas. Rodgers e Hammerstein fizeram um ótimo trabalho ao escrevê-las, e Charles Möeller e Cláudio Botelho fizeram um trabalho completo ao acabarem com toda a sua magia. Por todo o espetáculo, paira no ar uma forte impressão de que o Google Translator foi hiper utilizado. Por exemplo, na música “Maria”, que contém o verso “cabeça de vento/ biruta lelé/ tãn-tãn” TÃN-TÃN? Jura que não há nada melhor do que tãn-tãn? Ou então durante a “Dó-Ré-Mi”, conhecida e adorada por tantos, em que se podem encontrar coisas como “Lá é lá no cafundó.” E estes são apenas dois pequenos exemplos, não vou nem comentar como “Edelweis” teve o seu propósito e sensibilidade destruídos com a atuação de Saulo Vasconcelos.

Lembram-se quando falei de Julie Andrews, de sua graça, harmonia e quase perfeição? Pois então, Kiara Sasso não tem nada disso. Respeito muito a profissão de atores, principalmente atores de teatro que devem cantar, e apesar de todo o seu sucesso em O Fantasma da Ópera e A Bela e a Fera, não acertou com Maria. O tom nasal que incorpora nas músicas, junto com a sua irritante mania dze pronunziar zes em todaz az palávraz que não zão ezcritaz com zes, como se estivesse brincando de pick-a-boo com uma criança de um ano e meio o tempo todo, trazem apenas desonra para Julie Andrews. Ah, sim, para a verdadeira Maria Von Trapp também... Isso mesmo, Von Trapp, e não Fon Tráppi, como todos insistem em dizer o tempo todo.

Uma última observação. Na montagem brasileira, assim com na de Broadway, a Baronesa Schraeder e o Tio Max cantam. Têm duas ou três musicas que expressam suas superficialidade e ganância. No filme, porém, eles não cantam. O que é ótimo, pois parece trazer um argumento a mais – e bem importante – para justificar o amor e casamento de Maria e Georg. Afinal, ela trouxe de volta a musica para a vida dele, fez ressurgir a sensibilidade que há muito se escondera. Os dois juntos, mais os sete filhos, são a Família de cantores Von Trapp. Se a Baronesa canta, ela pode fazer parte da família, e tudo o que resta para tentar juntar Maria e Georg é o amor puro, e este não tem a menor graça. É errado fazer a Baronesa cantar, se a não-cantoria dela faz muito mais sentido.

Como já devo ter dito antes, A Noviça Rebelde é um dos meus filmes favoritos. Devo ter o assistido umas nove vezes e meia, o que dá em torno de 28 horas de minha vida. Isso pode ter interferido na construção de minha opinião sobre a peça, é verdade, mas mesmo assim foi completamente insatisfatório.