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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Ah, breve insensatez


E o que sentia então, era aquilo real? Os carros que passavam à sua frente, a toda velocidade, todos eles de fato existiam? Pois por um segundo, se fechasse os olhos levemente, se encontraria de novo sozinha, perdida em si, tonta com o zumbido forte da vida ao seu redor. A maré viria, sabia bem. Logo no horizonte, a paisagem verde e montanhosa se desmanchava, como uma pintura que derrete. Correra, sentira abaixo de seus pés o asfalto quente e incerto que poderia traí-la a qualquer momento. Acima de sua cabeça, conseguia ver, milhares de quilômetros de ar. Puro ar, e nada mais.

Sabia, ao olhar o farol fechado, que aquele era o seu momento de andar - suas pernas, porém, já haviam desistido de responder aos seus estímulos confusos - até mesmo o seu corpo a abandonava de vez em quando. Estava acostumada com essa sensação. Olhava para os lados, esperando com que os carros avançassem - talvez para cima dela, por que não? - desesperadamente esperando desculpas para ficar parada naquela esquina por mais algum tempinho. Sua mente se esvaziava. De novo, um despertar de seu coração a avisava que a maré logo mais chegaria.

Em suas mãos não cabia mais o tempo que desperdiçou procurando a vida simples. Seus braços fraquejavam, pareciam pesar toneladas, pendurados de seus ombros já arquejados com a culpa e o desanimo do mundo. Sentiu um buraco abrir-se bem na altura de seu peito, de dentro para fora, todas as suas dores em uma explosão que não pode ser contida. Chamou-a de fome, e não mentia. Tinha, afinal, fome de tudo o que via: queria ser, queria ter, queria existir para os outros naquele mundo que, simplesmente, não fora construído para ela. Motos e carros passavam, seus cabelos esvoaçavam, suas pernas tremiam. A angústia crescia na garganta, enquanto via no horizonte a água subindo lentamente

Não poderia evitar, com isso já havia se conformado. Pois então, o que faria agora? Tudo o que lhe cabia naquele momento seria, talvez, largar-se. Para o mundo, para a vida, para deus - tanto faz. Com tantas tormentas premeditadas, a única coisa que considerava viável, era desistir. Não sabia para quem, não sabia por que. Mas iria, sim sim. E tudo ficaria melhor. Iria, não duvide! - se ao menos pudesse atravessar aquela rua.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Aquela quase náusea


Digamos que são tempos remotos.
Considere um mundo saudável e limpo, uma sociedade igualitária e pacifista. Pense em uma unanimidade conquistada através de debates tranquilos. Transparência, razão e fé sempre muito equilibrados. A sensibilidade e a tolerância presentes em todas as ocasiões, em proporções razoáveis. Imagine estrelas no céu, noite após noite, milhares por pedacinho considerado.
Agora, inverta tudo.


Digamos que é tempo, imediatamente agora.

Considere a humanidade perdida em meio a tanta ambiguidade caótica. Pense em uma raça inteira retrocedendo, movida pela ganância e o cinismo. Pense em um mundo morrendo, em ruas sujas e violência. Uma juventude inconsequente e imediatista, valores subvertidos, excesso de informação mal interpretada.

Imagine o pobre personagem principal de nossa história, vendo tudo isso acontecer diante de seus olhos puros e desprotegidos, sentindo-se pequeno e insuficiente enquanto inúmeras soluções passavam pela sua imaginação.

Sabe por que tudo isso? Sabe por que essa história é sobre ele, e não seu vizinho?

Ora, pois ele – e aparentemente apenas ele – ainda se importava com o mundo ao seu redor. Sim, e magoava-se com as nuvens cinza que preenchiam os céus. Cada ferida do mundo ardia intensamente no seu enorme coração. Existem outros com ele, eu sei, espalhados por aqui e ali, mas hoje, é ele que me importa. Por quê? Pois eu, e talvez somente eu, conheço a história daquela única noite em que se sentiu pronto para desistir do mundo como o tinha – e acho que todos deveriam saber o que foi que o impediu.

Incansável, afinal, permaneceu através da noite, sentado em sua velha escrivaninha defronte a janela. A noite abafada passava por ele, nem uma brisa sequer havia o alcançado. Abraçava os joelhos bem perto do peito, seu nariz escorria irritantemente, mas ainda não sentia vontade de fazer algo para impedi-lo. Já não mais chorava, se é isso o que pensa. Na verdade, as lágrimas haviam cessado há algum tempo e apenas o nariz manteve-se, teimoso.

De súbito, levantou-se pisando por entre folhas e livros. A mesa rangeu, mas decidiu ignorar – havia decidido que iria ignorar coisas a partir de agora. Quando bem o desse vontade, fingiria não ouvir e pronto, ninguém o faria mudar de posição. Ajustou a postura - costas eretas, cabeça erguida observando bem longe a vida na cidade. Sentiu-se grande de onde estava, mais alto do que o mundo, bem acima do nível mundano. Olhou para baixo, para a calçada quase escura que se estendia vazia ao que pareciam anos-luz de sua janela. Assustou-se. Um calafrio lhe percorreu a espinha, sentiu o estômago gelar. Vertigem, tontura, quase medo. Fechou os olhos e respirou fundo, esqueceu-se ali por alguns segundos.

Calma, só não pense que é assim que nossa história acaba – não, não. Tudo isso é apenas relevante pois, exatamente naquele momento – de pé em cima da mesa – o nosso personagem principal começou a perceber o quão insano havia sido nas últimas horas, enquanto sentara-se sozinho em seu quarto escuro, revisando e reconsiderando todos os aspectos de sua vida. Conhecendo-se tão bem quanto julgava conhecer, sabia que nunca iria cumprir com as promessas que havia se feito. Afinal, se conseguisse, era assim que as coisas seriam: ele, voluntariamente aprisionado em seu quarto enquanto a vida acontecia lá fora. E até se aceitaria em um mundo particular – seja essa qual fosse – e ignoraria as consequências. E as dores e sentimentos. Não era disso o que precisava, e o que sempre o diziam?, precisava de uma dose um pouco maior de egoísmo no sangue para viver a vida direito.

Afligia-se ao pensar na cena, ao pensar na possibilidade de se tornar mais um desses que agora tanto adorava criticar. Sabia que nunca seria capaz de fazer algo do tipo, não apenas por vergonha mas também por falta de caráter. Havia vivido tempo demais dentro de sua pequena bolha para saber como agir de acordo com a tal malandragem inconsequente de que tanto falava. Era-lhe tarde demais.

Virou pelos calcanhares, olhou para o quarto penumbrento com os olhos entreabertos. Sua cama amassada esfriava estática, a cada minuto que se passava com ele na janela. A porta fechada, bem na sua direção, o guardava a salvo de um mundo de questionamentos e comentários infames - por que estava de pé em cima da mesa? havia chorado? Tudo isso porque se importa! O altruísmo está lhe fazendo mal à saúde, coitado... 

Coitado. Coitado! Inquietava-se até, forçava-se a respirar fundo. Preferia não pensar sobre isso agora.

Considerou por alguns minutos: se não pensasse sobre isso agora, pensaria sobre o que então? Nada mais passava pela sua mente senão a expressão enrugada de seus conhecidos entortando a cabeça e o chamando de exagerado. Naquele momento, não conseguia sentir mais nada senão fraqueza, pois sabia que estavam todos certos, e que a culpa seu sofrimento, no final das contas, era toda sua mesmo.

Mas o que podia dizer para explicar-se? Sabia que havia considerado – e até se prometido, há apenas alguns minutos atrás - mudar uma ou duas coisas em sua conduta e forma de ver o mundo. Teria de treinar-se e controlar-se, claro, mas conseguiria e eventualmente os benefícios viriam para lhe confirmar tudo o que sempre lhe disseram - assim tudo seria bem melhor.  Sabia também, entretanto, o quanto era insano, por motivos já esclarecidos nos parágrafos anteriores.

Desceu da mesa e andou até o meio de seu quarto. E então, não sabia mais para onde ir. Ficou parado ali mesmo, envolvido pela escuridão maciça, quase como um abraço fofo que aos poucos de desmanchava.

Aquela sensação, a que causara toda essa situação desconfortável, era recente. Lembrava-se de um dia não ter se importado, e de ter vivido a sua vida paralelamente a dos outros. Não era desde sempre que sentia aquela quase náusea ao ver seus colegas comportando-se como animais, selvagens e incontroláveis, para esconder evidências de atos delinquentes – lembrava-se tão bem da cena que até o fazia mal: um homem de quase dois metros de altura, parado bem à sua frente com uma postura consideravelmente respeitosa e lambendo os pulsos literalmente, para apagar provas de sua desonestidade. E as mentiras – bom, e as mentiras? Sabia muito bem o peso de seus argumentos nessa posição, sabia muito bem o quanto podia criticar, mas não podia evitar chatear-se!

Foi até a sua cama, deitou-se. Preferia deitar-se quente e confortável a ficar parado no meio de seu quarto, esperando com que esses seus pensamentos tristonhos fossem embora. Porém nada mais estava quente, e a sua falta de sono o aborrecia.

E o que fazer agora?  O que queria mesmo era levantar-se, caminhar até a rua, e talvez ainda não parar de caminhar até que encontrasse com a vida dos outros, longe o bastante de seu quarto e de sua consciência – queria apenas, por uma noite em sua vida, ser como todo mundo e não enumerar, a cada suspiro dado fora do compasso, todas as consequências que tal ato o traria mais tarde. Mas as coisas não eram assim, não era esse tipo de pessoa.

Não.

Era do tipo de pessoa que não se levantaria, e continuaria a remoer-se com as mágoas que não sabia como e a quem expor. E então, sabia bem, em seguida adormeceria tendo em sua mente que o amanhã sempre está por perto e que pode até – talvez, quem sabe? – ser um daqueles dias em que o sol brilha, e várias nuvens brancas flutuam no céu azul, e os pássaros cantam lindas canções... 

domingo, 13 de dezembro de 2009

Descobrimento e confirmação

Desde que o tempo é tempo, almoço na casa da minha avó aos sábados. Não todos, a cada quinze dias na verdade, mas fixou-se em uma rotina tão fortemente, que quando precisam acontecer num domingo, acabam se tornando um verdadeiro transtorno moral. Esta rotina já é passada, conhecida há muito. Acordava cedo, chacoalhada pelo gentil toque de meu pai, e ainda meio inconscientes, colocávamo-nos todos na estrada. Os olhos meio abertos observavam a paisagem urbana, sem qualquer interesse. Passava-se  o aeroporto, a loja de piscinas engraçadas, o túnel e pronto – a parte mais emocionante de toda a viagem.

Três altos morros seguidos, ladeiras íngremes que quando passeadas em alta velocidade traziam aflição ao estômago medroso. Margeados por sobrados decadentes, vilas escondidas por entre longos quarteirões, pinturas manchadas e pichações obscenas nas paredes encardidas. Carros sem rodas ou com vidros quebrados, crianças andando pelas calçadas quebradas com roupas sujas e chinelos finos. É a imagem de minha infância.

E ainda me lembro das cócegas delicadas que percorriam meu pequeno corpo quando, de repente, um semáforo prendeu-nos no meio da descida. Engolida pela distração da alta música do meu próprio disk-man, senti forte o tranco da freada. E ao passear os olhos vagos pela paisagem ao meu lado, encontrei algo que me prendeu a vista boba por alguns momentos confusos.

Abro aqui um parêntesis para esclarecer-lhe: sempre fui menina tão superficial que qualquer toque mais intenso que o acostumado pela fina pele fria, faz com que cresça pela espinha um arrepio intenso e martela ideias na insensata cabeça, fazendo de todo pequeno suspiro um importante momento na vida. Certo, fecho o parêntesis.


Sentado quase como um fantasma estava ele, na quina de um muro branco de uma casa de esquina. Com certeza era mais velho que eu, podia-se ver pelo corpo comprido e magrelo – se bem que mergulhada em meus oito anos, qualquer um parecia mais velho que eu. Uma perna se escondia dentro do muro, a outra balançava no lado de fora, pendurando uma havaiana azul surrada, sua camisa esgarçada mal cobria os seus ombros.

Vi que olhava em meus olhos. Ignorava completamente as feições incertas e sonolentas, curioso. O carro andava em soquinhos, mas continuava sustentando os olhos sérios nos meus, confusos. Inocente como era, duvidei ainda se olhava realmente para mim. Afinal, por quê?

Louca por provas, sedenta de confirmação, nervosa com o carro que descia aos poucos retardando a despedia mas alongando as oportunidades de descobrimento e afirmação, encontrei na minha alma infantil demais uma pequena solução: mostrei-lhe a língua. No canto da boca, lábios entreabertos discretamente, apenas uma pequena parte. Quase imediatamente, a resposta: mostrou-me a língua também, uma cópia idêntica de meu movimento bobo.

Correu pela minha cabeça uma grande quantidade de sangue quente. Senti as bochechas enrubescerem. Olhei automaticamente para o meu pai, no volante. E se tivesse me visto, naquele momento atrevido, ações inexplicáveis? O que faria? O que diria minha irmã se visse minhas bochechas vermelhas e os olhos arregalados com a surpresa da resposta. Como explicar-lhe por que havia havido uma resposta? Formigava-me o esôfago, sentia que suava e o coração acelerado fazia pulsar ainda mais forte a veia verde do pescoço. Não, não lhe exagero em nada, tenho certeza que foi isso mesmo o que se passou dentro de mim. Formigavam, acelerados. Respondera-me, mostrara-me a língua. O que significava, meu Deus, aquele menino me encarar daquela forma e então responder de forma tão clara e direta a minha – repito, minha – ação para o descobrimento e confirmação de uma intuição qualquer. Sabia, talvez, o que eu quis dizer? Padecia ele das mesmas sensações? Talvez se fizesse outra coisa, estabelecesse contato mais uma vez, talvez assim pudesse encontrar alguma resposta. Olhei para ele de novo. Ria-se, bem alto, uma gargalhada cujo som não chegava aos meus ouvidos, mas que se desenhava no céu azul em formas agudas, os pés flexionados feito de um pato, o chinelo preso entre os dedos sujos balançava capengo. Ria-se de mim.
Por quê? questionei-me durante anos.

Nunca saberei, claro. Pois o carro passou a movimentar-se de verdade agora, meu pai e minha irmã absorvidos em alguma longa conversa nem haviam reparado na vermelhidão de meu rosto e na mágoa que transparecia em meus olhos. Ria-se, por quê? Nunca saberei. No alto do morro seguinte, cócegas novas já me perturbavam, alheias a qualquer transformação na forma de serem sentidas. Mas posso garantir-lhe que havia mudado, com certeza. 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Andar é reconhecer, olhar*

Sabe, eu volto da escola a pé. Três vezes por semana ando pelos mesmos longos quarteirões me sentindo bem, passos firmes, independente das perdas ou vitórias da manhã escolar. Talvez seja porque me bate no peito uma longa sensação de liberdade assim que começo a caminhar, ou pode ser o conforto mesmo, pois afinal sempre sei para onde estou indo – casa. Tão bom, não? saber que se caminha para o lugar mais aconchegante e acolhedor de todo o mundo, e que lá poderá se desprender de suas dores e responsabilidades, por alguns momentos pelo menos, e ser quem realmente se é.

Ontem, andando por ali pela última vez do ano – pois finalmente foi o meu último dia de aula – e tomada pela nostalgia das despedidas temporárias, lembrei-me da primeira vez que passei por ali sozinha, logo no começo do ano. Sabe, este foi um ano de mudanças – cheguei afinal no primeiro colegial – e consigo me lembrar bem de como andava saltitando pelas calçadas, evitando as rachaduras do concreto, pensando preocupada no futuro incerto que viria. E foi ontem que eu finalmente percebi que ele veio, quase como eu havia imaginado. Claro que  menos harmônico e “Julia-cêntrico” que o idealizado, mas veio, passou e acabou. Mas não é disso que quero falar agora, afinal demoraria demais e o ano não acabou ainda. Queria apenas dizer que me intriga muito o quanto eu me construí durante essas caminhadas, e que só percebi isso ontem.


O que acontecia é bem claro: passava a manhã na escola e convivia com pessoas, forçadamente ou não. Via e ouvia coisas que não me agradavam ou que me chamavam a atenção. Tudo isso em um ritmo bem rápido e contínuo. Em casa, tudo o que queria era esquecer tudo aquilo e ser apenas filha de meus pais por um pouquinho, até que teria que voltar às minhas atividades relacionadas à escola – que por acaso, me atormentaram o ano inteiro. Era apenas nessa caminhada que, livre, podia pensar, quase filtrar, tudo o que havia se passado de manhã. Um processo bem simples, formador de grandes opiniões que me apóiam hoje, me sustentando neste ballet de “sou-o-que-sou”. Muitas das afirmações que hoje faço com muita certeza são baseadas em conclusões a que cheguei enquanto andava sozinha da escola para casa. Engraçado, não? uma caminhadinha tão subestimada que me trouxe tanto para a alma!


* trecho da música "Primeiro andar", Los Hermanos

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A memória eterna

Já era fim da tarde. Ela tinha se levantado rápido demais da cadeira, e por isso, tudo girava. A pouca luz que iluminava o estacionamento era suficiente apenas, as lâmpadas dos postes não estavam acesas ainda e a noite se aproximava mais rápido do que nunca. As árvores estavam paradas por causa da falta de ventos daquela tarde de verão, e os pássaros se reuniam nos fios elétricos suspensos por toda a rua.

Não havia nenhum barulho ou movimento. Estava tudo tão bonito.

Ela fechou os olhos e desejou, com toda a sua vontade, que aquele momento pudesse durar para sempre. Lágrimas quase caíram dos seus olhos quando viu que os pássaros iam embora, um por um, enquanto um avião passava em cima de sua cabeça, fazendo o maior estardalhaço.

Bom, na memória ele dura, ela pensou e foi se deitar.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O grande lucro

O bar estava como sempre, cheio e quente, com o seu incomparável zumbido de mil vozes. Quinta feira, fim da tarde, tudo era uma grande bagunça, pessoas gritando com os garçons que, nervosos, faziam ainda mais erros que de costume, risos histéricos de pessoas já um pouco alteradas e aquele cheiro de cerveja pelo ar.

Já se passava das seis, e seus cinco amigos o esperavam para contar e dividir os lucros do dia, já sentados em uma mesa perto à janela, cada um com o seu copo já meio vazio e impacientes. Estavam quase desistindo e indo para casa quando ele entrou no bar todo sorridente, como uma criança que acabou de ganhar uma caixa de presente com laço de fita.

Sentou-se na mesa calmamente e pediu uma bebida para um moço que passava. Este lhe devolveu algumas palavras mal educadas, afinal não era garçom coisa nenhuma. Seus amigos riam, e ele, sem perder a pose, vestiu a sua melhor cara de superior e disse, não me importo com a bebida, hoje ganhei coisa melhor. Todos os homens pararam de rir imediatamente e apoiaram seus cotovelos na mesa, curiosos para ouvir a história.

Ele bebeu um gole da bebida de seu colega, que nem se mexeu de tanta expectativa. Gozando da situação, reclinou-se na cadeira de plástico, limpou as unhas na camiseta suja, coçou a cabeça e limpou a garganta. Os seus amigos já mortos de curiosidade se cansaram de esperar a sua boa vontade e começaram o questionário.

"O que é? Ganhou boa coisa hoje?" um deles o perguntou. Ele apenas tirou do bolso as três moedas que tinha ganhado naquele dia. "Não mesmo" respondeu. Os cinco se mexeram nas suas cadeiras. Um coçou a cabeça, outro pôs a mão no queixo, outro olho para o teto. Eles até ignoraram a pequena quantia entregue.

"Então você conheceu alguém?" perguntou outro, o que segurava o queixo, piscando um olho como quem sugere malandragem. "Sou casado, rapaz" foi a resposta indignada.

"Já sei o que houve! Você apareceu na TV." este se reclinou na cadeira e cruzou os braços sobre a barriga, esperando a glória. "Eu? Nem de longe!"

As idéias foram acabando, seus amigos começaram a se render e a implorar pela história real. Ele, ria com a glória de quem pode, adorando todos os momentos em que ele tinha o poder.

Finalmente, depois de muitas promessas e propostas, limpou a garganta mais uma vez e tomou mais um gole da bebida de seu amigo, que de novo, não se moveu. Apoiou seus braços em cima da mesa e cruzou os seus dedos. Abriu a boca, formulando a frase em sua cabeça, mas fechou-a de novo. Os cinco outros, imitavam a sua pose, cada um se aproximando dele o máximo que podiam, para poderem ouvir todos os detalhes. Então ele, finalmente, começou. "Imaginem só, eu lá na minha rua. Fechou o farol, eu me levantei e fui até o primeiro carro, ofereci a bala, fiz a propaganda que pude, mas o moço não quis nem abaixar o vidro. Fui então para o segundo carro, vi que haviam umas crianças sentadas no banco de trás, mas assim que elas me viram, esconderam as bolsas embaixo do banco e então eu fui embora. Quando fui para o terceiro carro, a janela estava fechada e havia uma moça dirigindo sozinha. Ofereci a bala com todo o carisma que consegui. Ela me olhou nos olhos, fez não com o dedo e me deu um sorriso. Um sorriso tão bonito, sincero. Me fez sentir um calor assim, subir no meu peito. Eu fiquei tão feliz, que voltei a me sentar na calçada e fiquei lá a tarde inteira, pensando no sorriso da moça. Aquilo fez o meu dia."
Houve um grande silêncio. "Só isso?" um deles perguntou.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A barraquinha da venta

Na tarde de ontem eu vi algo que me machuca até agora. Então imagine você, leitor,o tamanho do meu sofrimento antes de começar a me julgar. Para você me entender melhor eu te explico que foi mais ou menos isso que aconteceu:
Estava no parque sozinha, tomando um sorvete, muito feliz comigo mesma e com a minha decisão de ter ido sozinha ao parque. Eu não costumo ir sozinha em lugar nenhum, na verdade eu geralmente estou rodeada de amigos queridos. Mas bem naquela tarde, bem quando eu estava morrendo de vontade de tomar um sorvete de morango do moço da barraquinha do parque, nenhum dos meus amigos pode ir comigo. Todos eles estavam ocupados com os seus coelhos e seus cabelos, e eu não os culpo por terem preferido lavar o cabelo do que ficar comigo - afinal, cabelo lavado é essencial.
Liguei para todos que conheço e gosto, mesmo para aqueles que não falava fazia tempo. Ninguém podia ir no parque comigo. Posso até dizer que fiquei um pouco magoada quando eu soube que ninguém poderia ir comigo. Estava com muita vontade de tomar aquele sorvete, mas não queria tomá-lo sozinha - afinal, quem anda sozinho é por que não tem amigos de verdade, e eu tenho milhões de amigos de verdade.
Porém, depois de tanto pensar e pensar, eu decidi ir sozinha tomar o meu sorvete. Talvez, depois que eu acabasse eu passaria na casa de uma amiga que mora perto do parque.
Quando cheguei lá, comprei o meu sorvete e o dono da barraquinha e começamos a conversar. Ele era um senhor muito simpático, velhinho, gordinho, careca e fofinho. Me perguntou de onde vinha e para onde ia, e eu lhe expliquei "venho da minha casa, e estou indo passar na casa de uma amiga. Decidi parar para tomar um sorvete, já que teria que passar aqui perto, de um jeito ou de outro." Conversamos por um tempo e eu gostei tanto dele que comprei um segundo sorvete.
(Pois é leitor. Agora eu preciso contar para você o que foi que eu vi. E eu peço desculpas por isso, por ter que lhe causar este tipo de sofrimento, mas é que eu preciso que alguém entenda a minha dor, já que os meus amigos não querem nem tentar. Então, prepare-se, e eu peço que me perdoe pela cena que vou descrever agora.)
Ao comprar meu segundo sorvete, percebi que não tinha mais dinheiro trocado na carteira. Então perguntei para aquele senhor se ele poderia me trocar o dinheiro. Ele pegou a nota que eu segurava da minha mão, e procurou por trocados na sua pochete.
Foi então que aconteceu. Ele, tão inocente e mas tão malvado, fez a pior coisa que poderia ter feito na frente de uma dama como eu.
Ele - simplesmente - cutucou o nariz e - com a mesma mão - me deu o troco que eu precisava.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Ser

Tenho medo de me conhecer por inteiro. Tenho medo do resultado. Pode ser que eu seja uma pessoa muito boa, muito ruim, ou um nada.O que me dá mais medo é saber que as minhas chances de ser nada são iguais as minhas chances de ser algo bom.

No ônibus velho e barulhento éramos ao todo seis. O motorista, concentrado em uma distração, o cobrador que dormia e eu que observava as outras três pessoas.
Havia uma moça de unhas vermelhas e cumpridas. Mãos entrelaçadas sob as pernas, olhava para o céu escuro pela janela. Respirava ofegante. Sentava-se a minha direita umas três fileiras para frente.
Um homem deitado no banco, logo atrás da moça. Tinha a cabeça encostada na janela e o pé pendurado da perna apoiada. O pé se mexia de acordo com o sacolejo do ônibus. Os braços cruzados sob o peito. Estava encolhido, como se estivesse com frio. Olhava para o chão no meio do corredor do ônibus. Mal parecia respirar.
Logo atrás dele, do meu lado, mas do outro lado do corredor, havia uma senhora. Com uma simplicidade elegante, olhava para frente apenas, talvez sem ver nada. Segurava nas mãos a alça da bolsa e um terço de madeira. Sua serenidade assustava.
Já eram altas horas da noite, e o ônibus continuava seguindo, balangando os pensamentos daquele povo. Só queríamos chegar em casa. Foi um passeio longo aquele. Vínhamos de longe. Os quatro subiram no mesmo ponto, decididos. Isso já fazia muito tempo. Horas, eternidades. Vimos pessoas entrarem e saírem, subirem e descerem. Juntos ou sozinhos. Mas nós ficamos ali.
Sim, ficamos.
Já àquele ponto éramos uma família. Ou poderíamos ser, se nos desligássemos dos nossos pensamentos por um instante sequer. Mas e eles, o que será que pensavam? Eu sabia no que pensava, e gostava. Mas eles?
Será que pensavam na vida? Não consigo entender porque se pensa na vida. Não é como se achará alguma solução para qualquer coisa. São apenas devaneios sem sentido. Nem pensamos nas coisas boas da vida. Por que será? Pode ser porque estas são usadas e desperdiçadas assim que se atiram à nossa frente. As coisas boas são modos de se sair da depressão. Ou modos de se entrar na solidão, ignorância, confiança.
Com as coisas ruins aprendemos. Aprendemos a não sentir, para não sofrer. As coisas boas acabam todo esse aprendizado. Coisas boas não servem para nada.
A noite estava bonita, a lua crescente. Havia algumas estrelas no céu. Olhei para as unhas da moça. Vermelhas, longas e bonitas. Então vi as minhas curtas e sujas. Olhei os sapatos do moço, sujos, velhos, cheios de buracos. Então vi os meus limpos, novos e inteiros. Olhei para a senhora e vi um auto controle, uma serenidade absurda. Então senti a inveja subindo pelo meu corpo, como uma onda violenta.
O ônibus balançava de um lado para o outro. Cantava um pouco também.
Perto do meu ponto levantei-me e apertei o botão. Os outros três também. Descemos no mesmo ponto e caminhamos para a mesmo direção.
A senhora olhava para frente, concentrada, porém em qualquer outro lugar. O moço chutava tudo que lhe cruzava o caminho. A moça caminhava calmamente olhando para baixo. Equilibrava-se inconsciente nos saltos altos que pisavam fortemente na calçada quebrada.
Parei na frente da minha casa. Abri o portão e entramos. Eu, a moça, a senhora e o moço. O moço fechou o portão atrás de si.
Ouvi o despertador tocar.

sábado, 2 de agosto de 2008

Echarpe vermelha

E lá estava eu. Naquela noite escura e fria, na ponta da ladeira, na frente do meu carro, que estalava de vez em quando para estragar o silêncio que me envolvia. Olhava para as estrelas, mas não achava o que procurava. A grande resposta que esperava. Lá na frente à cidade. A mais linda vista. A cidade toda iluminada, os prédios, os carros, as pessoas que continuavam com suas vidas, que cumpriam a rotina sem hesitar, seres humanos, com leves sentimentos, nada que se possa chamar de verdadeiro.

A vida passando diante de meus olhos. E eu lá. Sem fazer nada. Somente, tentando pensar em algo, tentando me concentrar. Mas era muito difícil. Há certas coisas que te atordoam para sempre, que você não consegue tirar da sua cabeça. O problema é que eu não conseguia lembrar o que tinha se passado. Olhava no meu relógio a cada 5 minutos, mas não conseguia lembrar o horário. Só conseguia lembrar que era uma quinta-feira, e que tinha acordado para ir trabalhar, mas algo aconteceu e eu acabei indo para a casa de Alice.

Fiquei lá como petrificada. Uma buzina distante me acordou. Lembrei porque estava lá o que tinha feito de tão horrível que não conseguia nem pensar. Eu tinha feito uma coisa tão terrível que nenhum ser humano seria capaz de fazer. Se é que eu poderia ser chamada de ser humano.

Tinha ido para a casa de Alice para pegar a minha echarpe vermelha que tinha deixado lá no dia anterior. Estava saindo quando ouvi um grito vindo de dentro da casa. Vi, então, um homem todo de preto, Alice no chão, no pé do sofá, com sangue nas mãos e no rosto. Percebi uma arma no chão perto de mim. Sem ele notar a minha presença, e sem pensar no que fazer, pequei a arma e puxei o gatilho. O homem caiu no chão com um berro. Aliança no dedo, garrafa na outra mão. Seu rosto me era familiar, mas estava atordoada, e não conseguia lembrar quem era. Era o marido de Alice. Bêbado, e na minha frente morrendo. Mas, o pior detalhe eu guardei pro final, a coisa mais assustadora da historia inteira. Alice, meu querido leitor, era minha cunhada.

(Este foi o primeiro texto que escrevi por vontade própria, e que gerou todos os outros que estão dentro e fora deste blog)