domingo, 29 de maio de 2011

Um cheeseburguer e batatas fritas para acompanhar


“Oi, desculpa...” disse a senhora já se sentando ao meu lado, enquanto almoçava no balcão da padaria. Envergonhado por ter maionese até nas bochechas, apenas olhei-a gentilmente. “Desculpa te perturbar mas... É que eu tava te olhando ali do outro lado do balcão e...”. Verdade, estava mesmo, não parou de me encarar desde o momento em que entrei, e com olhos tão curiosos e perfurantes que não pude evitar ficar bastante desconfortável. “Sabe, meu marido morreu faz tempo, ontem fez 10 anos e, eu não sei se é por isso mas, quando eu olhei pra você...”. Já havia engolido e a esperava terminar a frase para dar a próxima mordida. Ela hesitava muito, como estivesse para me contar o maior segredo de sua vida. Encarei-a como quem diz: “Sim...?”. “Qual o seu nome?”. Marcos, disse com a boca meio fechada com medo de ter alguma alface entre os dentes. “Desculpa? Marcos?”. Arregalou os olhos, mordeu o lábio e segurou a gargantilha de prata. Sim, por quê? “Você vai achar que sou uma velha louca, mas... É... Você acredita nessas coisas de reencarnação?” Ahn, não senhora, desculpa, mas acho que não. “Ah ta, não... Tudo bem, é que quando eu te vi eu te achei tão parecido com... sabe, meu marido, meu Marcos, esse era o nome dele, desculpa o incômodo, viu? Meu Deus, deve achar que sou senil ou algo assim, desculpa de novo, termine seu almoço. Boa tarde.” E eu lhe garantia: não não, imagina, o que é isso, não foi nada, mas desculpa mesmo tá?, é que eu não sou dessas coisas, nunca se sabe, bom, boa tarde...

terça-feira, 17 de maio de 2011

Aos que pacientemente esperam:

A maior parte dos meus sonhos são apenas surrealismos abstratos de impressões da vida, pouquíssimos me trazem mensagens. Os que o fazem, porém, são bem lembrados e, quando possível, viram textos e histórias.

Há algumas semanas, tive um desses. E apesar de alguns fatores - como o tamanho dos narizes e a cor incrivelmente roxa da parede da sala - sei que deve ser levado a sério, como  se meu inconsciente estivesse me dando a benção para fazer exatamente o que penso em fazer há tempos, dizendo-me que estou pronta. 

A verdade é que, embora não tenha dito nada por aqui e tenha contado com poucas pessoas apenas, eu definitivamente terminei O dia em que a noite não veio. Gostei do resultado, tanto que o imprimi e encadernei - e não há sinal maior de oficialidade do que a encadernação... 

Estive pensando em tentar a sorte, experimentar, mandar para uma editora e ver o que acontece. Passei umas noites procurando editoras, avaliando os catálogos, anotando endereços. Mas é preciso superar a vergonha, a apreensão e a insegurança antes de fazer qualquer coisa e, até algumas semanas atrás, achava que ainda não estava preparada. Acontece que tive aquele tal sonho, no qual tenho uma reunião com um editor (este que tem a sala roxa e o nariz inacreditavelmente enorme). Tenho a impressão - porque nos sonhos algumas coisas ficam sabidas mesmo sem ser ditas - de que estava na Companhia das Letras (o que foi bastante pretensioso do meu inconsciente, mas tudo bem) conversando sobre uma publicação para a minha história. 

Espero que não seja um sonho premonitório, pois aquela conversa tomou rumos esquisitíssimos e, de repente, estávamos na casa da minha avó - e é tudo que vou dizer sobre isso... Mas tenho quase certeza de que foi sim uma benção, e que vale a pena largar de frescura e tentar fazer algumas coisas boas acontecerem. 

Acho que vou no correio nessa semana, mantenho-os informados.

terça-feira, 22 de março de 2011

passado - futuro

É estranho mexer em papéis velhos e ver, com sua própria letra, ideias que já esqueceu que teve. 

Outro dia mesmo revirava em uma pasta que guarda quase todos os seus escritos desde 2007. A caneta muda, a grafia muda, os temas mudam – deus, até as opiniões mudam! – mas tudo é indubitavelmente meu. Reli contos e notas, coisas das quais hoje discordo das quais sinto vergonha, que quase não entendo. Mas como todas vieram de mim, como filhos, guardo e protejo. 

Em algum momento enquanto relia notinhas, encontrei uma carta – uma daquelas sem remetente, feita para ser lida apenas no futuro. Aparentemente, me esqueci dela, e a achei quase um ano depois do planejado. O pior é que me lembro perfeitamente de ter escrito a carta, de estar ainda no apartamento velho, sentada na ponta do sofá mais distante da janela, de vez em quando olhando as árvores verdíssimas balançando na janela. Lembro da situação como se fosse recente o bastante (ou importante o bastante...) 

Foi escrita no comecinho do meu primeiro colegial, em uma página do meu caderno de química, com uma caneta que emprestei para um menino que já saiu da escola (e levou a caneta junto, inclusive). Dizia coisas nervosas, aflitas, o quanto estava ansiosa para os próximos três anos e me perguntava se, durante aquele ano, consegui mesmo concretizar todos os planos – e, na verdade, alguns que foram esquecidos, outros ajustados, outros alcançados, outros postos propositalmente de lado... 

Depois de dois anos, o que me digo sentir não é nem mais verdade. Minhas ansiedades têm outros motivos, meus medos têm novas origens e meus escritos têm traços diferentes. É engraçado pensar no quanto mudou, como o tempo passou sem que tivesse percebido, e coisas que antes me pareciam tão dolorosas já são familiares – (“... semana que vem temos a nossa primeira prova de biologia. Enquanto estiver lendo essa carta, já terá feito no mínimo uma dúzia delas, mas mesmo assim, mesmo pensando assim, está nervosa com a primeira...”)
 
 Agora tenho certeza que sou com muito diferente de quem era no começo de 2009, eu cresci, e gosto disso.

terça-feira, 15 de março de 2011

3am


Assisto as horas passarem por mim. Não me tocam, não me mexo. Objetos imóveis, inexpressivos, frios – todos espalhados pelo quarto onde me confino. A música toca de novo e de novo, no mesmo volume, tom, cadência, e me pergunto como não me enjôo. 

É o tédio, é a preguiça, é o cansaço, é a insônia – tudo na mesma madrugada. É só quando, depois de olhar um ponto fixo por algum tempo, as cores e formas começam a se misturar é que devo ir me deitar, agasalhar-me por entre o edredon e finalmente dormir (e esperar, pois é apenas o dia seguinte que guarda a possibilidade de uma próxima noite tranquila).

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Nota:

Não se deixe enganar pelo sorriso e as feições gentis... Aqui dentro meu peito ainda bate com a ferocidade de uma besta.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Andante

com hora marcada, cansada, na chuva, sem rumo, com pressa, perdida, levada por um fluxo, atrasada, por andar, levada por um impulso, para perder peso, de cabeça baixa, para me sentir no meu lugar, com dor nos pés, para chegar lá, até corri...
de qualquer jeito, toda caminhada é melhor quando há alguém lhe esperando do outro lado.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Bela expressão

O violino começa. O piano acompanha. Um segundo suspenso no ar, enquanto a nota sustenida se alonga e a cortina ainda não sobe – mas é pouco tempo. Logo as luzes cintilam, o palco já aparece e bem no seu centro, imobilizada e perfeita, a bailarina espera. 

Sua dança começa, a rotina que treinara tantas e tantas vezes. Todo o esforço pela perfeição, agora sendo recompensado. A platéia é seu horizonte, o palco é sua vida. Valsa em seu sonho. Seus olhos, mais do que o seu sorriso aberto, brilham e abraçam a platéia em orgulho e egoísmo. 

Sei no que pensa. Pensa que agora deve dar o melhor de si, pois este é o momento de sua vida. Tem que se esforçar bastante para mostrar o andeor tão trabalhado. E nesse instante que passou, deveria ter esticado mais o joelho – lembra-se da aula em que a professora lhe chamou a atenção. Gosta de sua professora como se fosse sua mãe... E aquele pedaço do palco está escorregadio, tem de tomar cuidado quando chegar a hora das pirouettes. Arrepende-se da briga que teve com a sua mãe um pouco mais cedo, talvez devesse pedir desculpas. Será que ela está na platéia? Espera que sim, pois assim terá visto aquela arabesque maravilhosa. Acha que sua mãe se orgulha de vê-la no palco. Pelo menos sabe que compreende a sua paixão, disso tem certeza. A pirouette dupla saiu perfeita, que bom. Talvez o jantar hoje seja pizza, mas acha que vai preferir uma sopa mesmo... Olhe quantas pessoas na platéia, assistindo-a apenas, invejando seus gestos delicados, querendo estar em seu lugar. Não podem, aquela dança é sua – ela mereceu o solo, a fantasia, a atenção. Quanto poder, não?, tem todos aqueles corações na sua mão, controla-os com os movimentos de seus braços. Como é bom ser bailarina, desejada, invejada e querida...  6, 7, 8... Momento crucial da dança, concentra-se: demi plié, grand-jete, cambre, respire, lembre-se do joelho esticado, esqueça a dor no pé, pirouette, fim da música. 

Explosão de aplausos e orgulho – derrete-se em sorrisos, cumprimenta a platéia, agradece o carinho.