terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Queridas,

Férias, logo no seu começo, significam promessas. Nossa, e como fazemos promessas para todos, listas de 'coisas que farei este mês' que sempre acabam ficando pra depois. Por problemas de agenda e equivalentes, todas as promessas feitas para amigos e colegas, de encontros e saídas, acabam indo dormir antes do meio do mês. Isto - para os sinceros, claro - desperta o desespero da saudade no coração de cada um, a tristeza e o vazio na alma de quem gostaria de estar acompanhada de boa companhia o tempo todo, como quando em dias letivos. Tudo o que vejo por aí são lembranças e - mais - promessas de saudades. Foi isso que me fez rever algumas fotos e reler alguns posts. Acho que fui um pouco equivocada naquele para as minhas amigas, que fiz há um ano e meio, e quero consertá-lo:



Elas eram quatro. Completamente diferentes umas das outras. Nas suas aparências, gostos, vontades, prazeres, preferências. Se amavam, como prisioneiras voluntárias de uma amizade original.
Vêem-se em vidas com rumos distintos. Enquanto uma sonha em mudar o mundo lendo livros, outra sonha em mudar o mundo e ir para a Lua. As outras duas ainda não tem muita certeza do que as espera, mas eu lhe garanto, leitor, que poderiam ir para onde bem desejarem. Este, na verdade, é um dos fatores mais importantes de todos que suporta esta amizade: o apoio. Mesmo sem concordarem ou se entenderem o tempo todo, sabem quando apoiar, incentivar e até mesmo confortar quando as coisas não dão certo. São sempre sinceras com as suas opiniões e conselhos, regados com os mais puros desejos de felicidade e bem estar. Com o tempo aprenderam a se ouvir, e também a falar. Não há um suspiro que não compartilham.
Ainda é raro estarem todas juntas. Com o passar dos anos e com todas as mudanças nas circunstâncias em que se encontram, parecem se afastar e separar mais e mais. Apenas fisicamente, claro, pois não há um dia sequer que - pelo menos uma delas - não pense nas outras e em todas as piadas que poderiam ter criado. Mas acharam outras formas de se comunicar e de estarem todas juntas. Sempre.
Amizades paralelas não são mais um importuno nesta amizade. Todas tem amigos e amores adicionais, se me permite este nome, mas dentro da roda não há nenhum ciúme. As quatro entendem - não só por causa da distância, mas por causa da simples maturidade que as atingiu um dia - que as outras tem outros em suas vidas, e desde que isso as faça bem, não há nenhum problema.
Aprendem muito juntas. Por serem tão diferentes, não compartilham sempre das mesmas qualidades. O que não é um problema, já que elas se ensinam a compreender e adaptar. Ultrapassam limites, tristezas, tormentas, e eu acredito que tudo isso só acontece pois têm umas as outras.
E ainda juram amizade eterna - e claro, acreditam em todas. Com o passar do tempo, essa coisa de 'amigas para sempre' já não parece mais tão irreal. Quanto mais a distância cresce, mais o carinho se intensifica e duvido muito que isto simplesmente desapareça. A outra opção para a separação definitiva dessas quatro seria alguma traição ou algo do tipo, e isso obviamente não vai acontecer - estou absolutamente positivamente completamente certa disto. A convivência harmoniosa das quatro já está gravada na memória, não só delas mas também de todos que as conhecem, e isso já é o bastante para garantir a eternidade.
Já não brigam mais. E os ocasionais desentendimentos duram minutos, no máximo. As crises individuais estão sempre por aí, mas não há sequer um problema que não possa ser discutido e analisado, e então, claro, superado.
Numa amizade, queridas, não há regras nem padrões, mas amor e fidelidade, e disso nós temos de sobra.
Vocês fazem de mim uma pessoa melhor. Obrigada por isso.
Amo vocês. E o meu para sempre é certo.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

FEBRACE 2010 - aí vamos nós

Há alguns posts atrás, naquele sobre literatura africana, disse que Ana e eu estávamos  concorrendo a FEBRACE  com  a nossa querida monografia. A lista de finalista só foi divulgada na última sexta-feria 18, e - como indica o título do post -  fomos classificadas! Sim! Estaremos lá! Não posso descrever o quanto ficamos surpresas, e claro, muito satisfeitas. Foram meses de trabalho muito intenso, e agora teremos a chance de apresentá-lo para muitas pessoas! Isso é tão emocionante!
Agora, vou aproveitar que tenho este espacinho aqui e que o espírito natalino está espalhado pelo mundo, para fazer os agradecimentos apropriadamente:

Queridos pais e familiares,
foi um longo e demorado processo, sei bem disso. Alguns de vocês acompanharam tudo de longe, mas mesmo assim tiveram que ouvir reclamações ou resquícios de debates que ficavam na minha cabeça por um tempo mesmo depois de escrito o texto... Outros acompanharam bem de perto, muito perto, nas madrugadas cansadas ou nas manhãs sonolentas. Estes sim, tiveram de ouvir muito. Sobre coisas bem variadas. E ainda ajudar quando as frases e as idéias não saiam tão claras quanto deveriam!
Enfim, de uma forma ou de outra, o apoio de todos foi muito importante durante todo tempo. Não posso nem começar a descrever a minha satisfação quando dizia "estou desenvolvendo um trabalho com uma amiga, sobre literatura africana..." e as suas sombrancelhas se arqueavam com um ar de animação questionte. Pois é, todos vocês fizeram isso - o que é bastante engraçado. Além do mais, todos conhecem de alguma forma a minha paixão por literatura, então pareciam perceber automaticamente a importância disso tudo para mim. Vê-los carinhosamente despejando incentivos e apoio moral para a finalização deste trabalho é muito gratificante. E fofo. Obrigada à todos. 

Queridos amigos,
foi muito bom ter vocês ao nosso lado durante esses meses, suportando discussões e debates na hora do recreio e tudo mais. Não posso culpá-los por não acharem literatura africana tão 'bacana' quanto nós, mas agradeço por todo o esforço que fizeram para parecerem animados com tudo. Significa muito para nós saber que vocês compreendem, cada um da sua forma, a importância deste trabalho, e que nos apoiam, mesmo em 'nerdisses' deste tamanho que não os atraem de forma alguma. E sabem muito bem que, sem vocês por perto, Ana e eu teríamos nos matado em algum momento. Muito, muito obrigada por tudo.

Queridos professores e orientadora,
agradeço, primeiramente, a compreensão de todos que nos cederam aulas para conversar com a nossa orientadora. O tempo foi curto e, de vez em quando, essa era a única forma. Também, obrigada a quem nos ajudou na escrita do trabalho, com segundas opiniões na revisão e formulação de frases. E, claro, não posso deixar de agradecer os professores que ficaram sabendo do trabalho, de uma forma ou de outra, e - assim como os meus parentes - arquearam as sombrancelhas. Muito obrigada por nos desejarem sorte e torcerem pelo o melhor!
Agora você orientadora, merece um parágrafo especial! Aposto que não achou que chegaríamos tão longe quando viu nosso esquema feito em post-its, para a primeiríssima escrita do trabalho. Mas, não se culpe - a gente também não. Quando nos convidou para aumentar o trabalho e tentar inscrevê-lo na FEBRACE, disse bem que daria bastante trabalho e provavelmente não seríamos classificadas, afinal é uma grande feira nacional. As chances de aceitação eram pequenas, e assim deveriam ser as nossas expectativas. Fizemos todo o trabalho apenas pela experiência, para aprender a fazer pesquisas e monografias - e quer saber, foi uma ótima experiência. Muito bom ter uma professora orientadora que lhe acompanha em todas as etapas do trabalho, sempre com sugestões, disponibilidade e o mais importante, paciência. Muito obrigada por tudo, de verdade. E parabéns pela classificação! afinal o trabalho é seu também.

Querida Ana, 
hum, por onde começar? Talvez, devo lhe agradecer por ter feito parte de tudo isso comigo. Você é uma das poucas que compreende o quanto literatura importa para mim, e saber que terei a sua companhia quando finalmente mergulhar neste louco mundo da teoria literária, é um enorme conforto e incentivo. Ninguém no mundo teria tanta paciência quanto você teve para trabalhar comigo, em um trabalho voluntário e extra-curricular ainda! Obrigada por ter suportado toda a minha ansiedade, meu complexo de autoridade e estresses eventuais. Este trabalho não seria possível sem você, sem a sua clareza nas idéias e perspicácia, grande habilidade de chegar a conclusões plausíveis!  Ter feito, então, um trabalho tão importante quanto esse só teria dado certo com você
Lembrava-me outro dia que nossa amizade já dura oito anos. Quase nove, na verdade. Alguns anos foram turbulentos e confusos, mas estes últimos foram tranquilos e bem estáveis. Nossa amizade chegou em um nível em que não adianta perder tempo discutindo, afinal, dalí a cinco minutos estará tudo bem de novo! Por bem ou por mal, querida Banana, somos muito parecidas e eu coloco a culpa na longa convivência. Nos suportamos e aceitamos, cada uma com todos os seus defeitos e qualidades, que no fundo, no fundo nem importam tanto assim. Não me importa o que consegue ou não fazer, desde que essa nossa amizade, desse jeito que ela é hoje, continue assim por muitos anos ainda.
Obrigada por tudo querida, e parabéns pelo trabalho!
FEBRACE 2010, we are on our way.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Descobrimento e confirmação

Desde que o tempo é tempo, almoço na casa da minha avó aos sábados. Não todos, a cada quinze dias na verdade, mas fixou-se em uma rotina tão fortemente, que quando precisam acontecer num domingo, acabam se tornando um verdadeiro transtorno moral. Esta rotina já é passada, conhecida há muito. Acordava cedo, chacoalhada pelo gentil toque de meu pai, e ainda meio inconscientes, colocávamo-nos todos na estrada. Os olhos meio abertos observavam a paisagem urbana, sem qualquer interesse. Passava-se  o aeroporto, a loja de piscinas engraçadas, o túnel e pronto – a parte mais emocionante de toda a viagem.

Três altos morros seguidos, ladeiras íngremes que quando passeadas em alta velocidade traziam aflição ao estômago medroso. Margeados por sobrados decadentes, vilas escondidas por entre longos quarteirões, pinturas manchadas e pichações obscenas nas paredes encardidas. Carros sem rodas ou com vidros quebrados, crianças andando pelas calçadas quebradas com roupas sujas e chinelos finos. É a imagem de minha infância.

E ainda me lembro das cócegas delicadas que percorriam meu pequeno corpo quando, de repente, um semáforo prendeu-nos no meio da descida. Engolida pela distração da alta música do meu próprio disk-man, senti forte o tranco da freada. E ao passear os olhos vagos pela paisagem ao meu lado, encontrei algo que me prendeu a vista boba por alguns momentos confusos.

Abro aqui um parêntesis para esclarecer-lhe: sempre fui menina tão superficial que qualquer toque mais intenso que o acostumado pela fina pele fria, faz com que cresça pela espinha um arrepio intenso e martela ideias na insensata cabeça, fazendo de todo pequeno suspiro um importante momento na vida. Certo, fecho o parêntesis.


Sentado quase como um fantasma estava ele, na quina de um muro branco de uma casa de esquina. Com certeza era mais velho que eu, podia-se ver pelo corpo comprido e magrelo – se bem que mergulhada em meus oito anos, qualquer um parecia mais velho que eu. Uma perna se escondia dentro do muro, a outra balançava no lado de fora, pendurando uma havaiana azul surrada, sua camisa esgarçada mal cobria os seus ombros.

Vi que olhava em meus olhos. Ignorava completamente as feições incertas e sonolentas, curioso. O carro andava em soquinhos, mas continuava sustentando os olhos sérios nos meus, confusos. Inocente como era, duvidei ainda se olhava realmente para mim. Afinal, por quê?

Louca por provas, sedenta de confirmação, nervosa com o carro que descia aos poucos retardando a despedia mas alongando as oportunidades de descobrimento e afirmação, encontrei na minha alma infantil demais uma pequena solução: mostrei-lhe a língua. No canto da boca, lábios entreabertos discretamente, apenas uma pequena parte. Quase imediatamente, a resposta: mostrou-me a língua também, uma cópia idêntica de meu movimento bobo.

Correu pela minha cabeça uma grande quantidade de sangue quente. Senti as bochechas enrubescerem. Olhei automaticamente para o meu pai, no volante. E se tivesse me visto, naquele momento atrevido, ações inexplicáveis? O que faria? O que diria minha irmã se visse minhas bochechas vermelhas e os olhos arregalados com a surpresa da resposta. Como explicar-lhe por que havia havido uma resposta? Formigava-me o esôfago, sentia que suava e o coração acelerado fazia pulsar ainda mais forte a veia verde do pescoço. Não, não lhe exagero em nada, tenho certeza que foi isso mesmo o que se passou dentro de mim. Formigavam, acelerados. Respondera-me, mostrara-me a língua. O que significava, meu Deus, aquele menino me encarar daquela forma e então responder de forma tão clara e direta a minha – repito, minha – ação para o descobrimento e confirmação de uma intuição qualquer. Sabia, talvez, o que eu quis dizer? Padecia ele das mesmas sensações? Talvez se fizesse outra coisa, estabelecesse contato mais uma vez, talvez assim pudesse encontrar alguma resposta. Olhei para ele de novo. Ria-se, bem alto, uma gargalhada cujo som não chegava aos meus ouvidos, mas que se desenhava no céu azul em formas agudas, os pés flexionados feito de um pato, o chinelo preso entre os dedos sujos balançava capengo. Ria-se de mim.
Por quê? questionei-me durante anos.

Nunca saberei, claro. Pois o carro passou a movimentar-se de verdade agora, meu pai e minha irmã absorvidos em alguma longa conversa nem haviam reparado na vermelhidão de meu rosto e na mágoa que transparecia em meus olhos. Ria-se, por quê? Nunca saberei. No alto do morro seguinte, cócegas novas já me perturbavam, alheias a qualquer transformação na forma de serem sentidas. Mas posso garantir-lhe que havia mudado, com certeza. 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Andar é reconhecer, olhar*

Sabe, eu volto da escola a pé. Três vezes por semana ando pelos mesmos longos quarteirões me sentindo bem, passos firmes, independente das perdas ou vitórias da manhã escolar. Talvez seja porque me bate no peito uma longa sensação de liberdade assim que começo a caminhar, ou pode ser o conforto mesmo, pois afinal sempre sei para onde estou indo – casa. Tão bom, não? saber que se caminha para o lugar mais aconchegante e acolhedor de todo o mundo, e que lá poderá se desprender de suas dores e responsabilidades, por alguns momentos pelo menos, e ser quem realmente se é.

Ontem, andando por ali pela última vez do ano – pois finalmente foi o meu último dia de aula – e tomada pela nostalgia das despedidas temporárias, lembrei-me da primeira vez que passei por ali sozinha, logo no começo do ano. Sabe, este foi um ano de mudanças – cheguei afinal no primeiro colegial – e consigo me lembrar bem de como andava saltitando pelas calçadas, evitando as rachaduras do concreto, pensando preocupada no futuro incerto que viria. E foi ontem que eu finalmente percebi que ele veio, quase como eu havia imaginado. Claro que  menos harmônico e “Julia-cêntrico” que o idealizado, mas veio, passou e acabou. Mas não é disso que quero falar agora, afinal demoraria demais e o ano não acabou ainda. Queria apenas dizer que me intriga muito o quanto eu me construí durante essas caminhadas, e que só percebi isso ontem.


O que acontecia é bem claro: passava a manhã na escola e convivia com pessoas, forçadamente ou não. Via e ouvia coisas que não me agradavam ou que me chamavam a atenção. Tudo isso em um ritmo bem rápido e contínuo. Em casa, tudo o que queria era esquecer tudo aquilo e ser apenas filha de meus pais por um pouquinho, até que teria que voltar às minhas atividades relacionadas à escola – que por acaso, me atormentaram o ano inteiro. Era apenas nessa caminhada que, livre, podia pensar, quase filtrar, tudo o que havia se passado de manhã. Um processo bem simples, formador de grandes opiniões que me apóiam hoje, me sustentando neste ballet de “sou-o-que-sou”. Muitas das afirmações que hoje faço com muita certeza são baseadas em conclusões a que cheguei enquanto andava sozinha da escola para casa. Engraçado, não? uma caminhadinha tão subestimada que me trouxe tanto para a alma!


* trecho da música "Primeiro andar", Los Hermanos

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Sensibilidade ou cultura?

Agora em novembro assisti nas aulas de Ensino Religioso, por algum motivo, o filme baseado no best-seller O menino do pijama listrado. Todas as meninas choravam, enquanto os meninos riam de seus olhos inchados, e foi então que eu ouvi tal declaração:
"vocês meninos não são sensíveis o bastante para entender a sensibilidade deste filme!"

Fiquei encucada: não achei nada de nada sensível. É um filme muito bonito, é verdade, e uma história bem contada e muito bem amarrada, apesar de bastante óbvia. Mas, sensível? Não sei se este é o rótulo mais preciso.

Lembro-me que assistimos este filme mais ou menos na mesma época do incidente do restaurante coreano aqui em São Paulo, sabem? Em que 60k de carne de cachorro e gato foram apreendidos pela polícia em um restaurante coreano. Um crime absurdo!

Agora, por quê?

Porque a imagem do cachorro, em nossa cultura, é equivalente a imagem de um ser humano. Não é? O cachorro, afinal, é o melhor amigo do homem, certo? É apenas dá-lo um nome e pronto, cria-se um vínculo afetivo breve, porém fortíssimo. Além do mais, quantos de vocês já não tiveram, quiseram ter ou ainda têm um cachorro? Quando se ouve dizer que se comiam cachorros, sua memória não se direciona automaticamente ao cachorro mais próximo de você, ou seja, aquele que tem o seu carinho. A imagem que se tem, na maioria dos casos então, não é semelhante a de se alimentar de um primo ou mesmo irmão?

Agora, voltemos aquele ponto de antes, a sensibilidade dos best-sellers.
Já leu Marley & Eu? Se não, tenho certeza que viu pelo menos  a capa. É um labrador, certo?, pequenininho, com cabeça de lado, olhos redondos e orelhas caídas. Este é o Marley. De acordo com a cultura da sociedade em que você vive, ele é fofo. Muito fofo. E tem um nome, portanto é um "alguém" de verdade. Então é claro que - cuidado, spoiler - quando Marley fica velho e naturalmente caminha em direção à luz, você chora. É o melhor amigo do homem, que se assemelha de alguma forma com a sua realidade, e que morre. (E a morte também é definida culturalmente como uma coisa trágica, merecedora de lágrimas e tristezas, não é?)

A mesma coisa acontece com O menino do pijama listrado. São crianças, pôxa vida. E o pior (cuidado, spoiler) - reinterprete as suas lágrimas: é muito provável que tenha chorado por que o garoto alemão  morreu, já que o judeu obviamente morreria no final. São duas crianças pequenas, portanto são inocentes e apenas curiosas. É uma pena morrerem, já que eram somente crianças, certo? Será que não é por isso que chora?, pois são crianças, e há uma forte imagem angelical vinculada a juventude. Se nos apoiamos na questão da inocência, então, as lágrimas aumentam, pois "somem os motivos e justificativas" meramente plausíveis para o seus tristes fins.

Será que compreende o que digo?
Pois é uma característica cultural da sociedade em que você vive, leitor. Chorar lendo qualquer um destes livros não prova a sua sensibilidade, mas o seu mero senso de humanidade. E o seu grau de participação em sua cultura.

O que define a sensibilidade de uma história/literatura são fatores maiores e mais complicados e - no meu ponto de vista - altamente relativos. Aconselho-lhe a não se apoiar na lista dos mais vendidos para definir-se ou mostrar aos outros quão grande é o seu coração.
E, cuidado com as afirmações que faz.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Breve esclarecimento sobre literatura africana

Sempre me impressionou a rapidez com que as coisas mudam. Em março, por exemplo, não poderia imaginar que estaria aqui hoje, escrevendo este post. Mas já que mudam assim, sem termos o mínimo controle, simplesmente acompanhar é a nossa única opção.

Logo no começo do ano escolhi, como primeira opção, cursar o Projeto de Literatura Africana (de países lusófonos). Estranha escolha, muitos me falaram, às vezes com uma simples careta ao invés de palavras. Mas nada disso me incomodava, afinal fiz esta escolha por ter certeza do que quero para o meu futuro: estudar literatura. Todo e qualquer conhecimento que adquirir agora me trará benefícios depois. Percebi o quanto é difícil para as pessoas compreenderem e aceitarem uma produção cultural africana que seja mais que barulhos corporais e danças folclóricas. Foram inúmeras às vezes em que me encontrei diante de: “ah, e África lá tem literatura?”. Mas nada disso me atingia. A monografia que Ana e eu escrevemos para o Projeto, como um simples trabalho escolar, acabou se tornando uma atividade extracurricular. Fomos convidadas pela professora para tentar nos inscrever na FEBRACE. (Está lá, inscrito. Agora só nos resta esperar.) Esta possibilidade de continuação do trabalho fez com que muitas discussões e análises se fizessem necessárias, o que nos transformou em duas defensoras ferrenhas da literatura africana. Comentários e desprezo para com essa literatura já não são mais permitidos perto de nós, que com nossos humores costumeiros, fazemos questão de exibir o nosso incomodo. É difícil o ouvinte entender o porquê do sermão – e, por ter a ferramenta e finalmente, o tempo – decidi escrever-lhe e esclarecer tudo.


Desconsidere, antes de tudo, qualquer que seja a sua visão sobre literatura. Ignore, por alguns momentos, os “objetivos” que enxerga em qualquer produção literária. Pensar que livros são feitos somente para o divertimento do povo alfabetizado, para lhe servir de passatempo; escritos apenas por figuras excêntricas e reservadas, que gostam de questionar o mundo ao seu redor e lhe expor seus pensamentos íntimos, suas idéias e opiniões avançadas para as suas épocas; análise da sociedade; produtos feitos exclusivamente para o mercado – são todas visões parciais. Tipos idealizados de escritores foram criados, obedecendo tais objetivos. Paira um ar de classe média alta enquanto se pensa em literatura norte-americana. Da produção britânica, então, nem se fala! E é então que chegamos aos estereótipos africanos – vários países sofrem com problemas sociais, econômicos e políticos, e ainda há o bom e velho preconceito racial, para dar o toque final neste pacote de insensibilidades – que esbarram nas nossas imaginações e nos impedem de pensar em qualquer produção literária na África. Mas as coisas, obviamente, não são bem assim.


Angola, o país por nós estudado, fortaleceu a sua produção durante o período colonial, pois fez da literatura uma ferramenta de resistência, utilizando-a para a construção da identidade cultural angolana e na luta pela independência do país. Os intelectuais participavam efetivamente das guerrilhas, com armas nas mãos. Pepetela, intelectual angolano, fez de sua novela As aventuras de Ngunga uma ferramenta para a alfabetização e educação de guerrilheiros. Os "objetivos" da literatura angolana saem dos padrões por nós estabelecidos, e por isso pode nos parecer estranho uma produção literária feita para libertar um povo do regime colonial que os controla.

O escritor contemporâneo estudado foi Ondjaki, que nasceu após a independência angolana (1974) e, portanto não lutou em guerrilhas, mas escreve com um viés autobiográfico, narrando histórias de sua infância, indicando uma mudança na literatura angolana. Ao contrário do que se é dito, a literatura angolana pode sim ser considerada de muita qualidade, mesmo quando não relacionada com guerrilhas e lutas pela libertação. É quase um absurdo dizer que escritores angolanos podem apenas criticar e reinvindicar a situação social de seu país, sem poder inserir em seus textos, memórias e sentimentos. Ondjaki é uma prova viva disso.

Moçambique segue uma trajetória semelhante, pois também foi uma das últimas colônias portuguesas a se tornar livre.
A tese ainda continua. 30 páginas quase, com citações e uma bela formatação. Foi um longo, mas gratificante trabalho, que nos deu a possibilidade de escrever, hoje, um post em defesa à literatura africana. Não há mais justificativas para qualquer descaso ou desprezo; o básico lhe foi explicado. Não esperamos que se interesse por este assunto, assim como aconteceu conosco, mas peço pelo menos que perceba o que é a tal literatura africana, e o seu verdadeiro valor.
E não nos venha mais com comentários impertinentes.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Lágrimas e Klinex

Fazia tempos que não me entristecia assim. Já me era quase um sentimento desconhecido, clandestino em meu pequeno coração. Meu corpo via-se seco e esturricado por dentro, ligações internas quase rompidas. Talvez foi o desacostume, é verdade, que fez com que todas as cores parecessem borradas, e as linhas indefinidas diante de meus olhos mareados de lágrimas salgadas. Bochechas úmidas e nariz escorrendo, sentia os lábios entortarem com força para segurar qualquer outra lágrima que restava-me ainda pendurada nos cílios, que traria consigo uma outra longa enxurrada.
Sentava-me no escuro sozinha, patética - invisível porém. Dialogava com as sombras que via rondar os meus olhos, e aconchegava-me no quente do edredon amassado feito um colo carinhoso. O escuro respondia-me, tudo aquilo que desejava, ouvia de novo as palavras gaguejadas que saiam em um impulso incontrolado. E então, deixava-me ser no silêncio solitário, eu apenas e meus pensamentos. Terríveis pensamentos, que de vez em quando trazia-me de volta à memória todos os sofrimentos de momentos atrás, e dava de novo aos meus olhos motivos para transbordarem.
Fazia tempo, é verdade, que não me sentava naquela posição tristonha, e me encontrava de repente, com aquele tal espírito escritor que reside alguma parte de mim. Engordara, acredito eu, desde a última vez que nos encontramos nesta mesma situação. Pois foi quase instantaneamente que os meus dedos molhados de lágrimas enxugadas começaram a formigar. Sim, minha mão formiga sempre que tenho em minha cabeça, palavras exaltadas crescendo-se em frases emocionais. E as benditas palavras vinham me violentas, uma após a outra, em orações lindíssimas que acabaram por se perder na minha imaginação incontrolável. É-me normal, porém, perder idéias de repente.
Todas as lágrimas secaram, sim, e senti que meu nariz já não estava mais vermelho. Meus lábios, agora talvez, acompanhavam sussurrando as várias idéias que me brotavam no pensamento, nada que eu conseguisse perceber ou controlar.
Acho que então adormeci, vestida neste outro espírito que me toma nas horas mais inesperadas. Pois então não me encontrava mais no escuro, como antes havia me deixado. Não havia sombras ao meu redor, nenhuma, tampouco conforto. Estava ali apenas eu, em mais ninguém – incríveis ossos fracos, e uma pele sensível que mal os cobria. Mãos pequenas e grandes olhos, sim, foi isso o que vi enquanto me observava em alguma poça qualquer. Enxergava nas veias verdes o fluxo estranhamente lento do sangue quente e grosso. Só por isso soube que ainda vivia.
O cenário eu não entendo, até hoje. Procuro em lembranças, mas o que vejo, na realidade, são dois olhos enormes – meus, eu sei – que brilhavam com a mesma tristeza que fora derramada por todo o escuro compreensível. E não é que ainda lhe escorriam lágrimas, enormes gotas de água pesada, que contornavam as bochechas e pingavam pelo queixo, sem qualquer controle e sem mais nenhum motivo aparente, pois até esse já havia desvanecido. É só isso que me lembro, dores injustificadas e sem controle.
Sei bem que era um sonho. Pois é apenas em sonhos que os objetos mais desejados lhe aparecem nas mãos como em um passe de mágica – e em um movimento vi em minhas mãos um lenço de papel. Papel grosso, reparei com as pontas dos dedos ressecadas. Mas precisava secar as mágoas que me escapavam. E ao dobrar o papel da forma que sempre o faço – na metade, horizontalmente – vi palavras desenhadas em tinta azul, minha letra, por todo o papel. Frases, por mim mesma pensadas, que causavam-me ainda vergonha, mesmo quando lidas em silêncio para os meus próprios ouvidos. Sempre fui tão reclusa...
Mas relembrando as idéias e palavras que de mim um dia fluíram livremente, todas as mágoas exageradas que transbordavam de meus pobres olhos foram se tornando ainda outras idéias e palavras, frases ainda mais completas e histórias ainda mais significantes.
Sumiram quase todas, as lágrimas. Hoje, são-me raras. Mas o soberbo espírito escritor cresce mais e mais em mim todos os dias em que sinto aquela necessidade oculta de achar-me no escuro solitário das sombras reconfortantes. Os lenços portanto são agora usados em mais frequência – tenho até a minha própria coleção.