sábado, 3 de abril de 2010

Filme vs Filme

Perdoe-me por fazer comparações deste tipo, e tenho plena consciência de que posso estar cometendo uma grande injustiça. Mas este é um daqueles posts que se fez necessário assim, desse jeito mesmo.

Há um tempinho planejei escrever sobre o "Preciosa", um dos filmes mais falados do ano. A história, baseada na novela Push de Sapphire, é sobre uma garota - Clareece Preciosa Jones - analfabeta, pobre e muito acima do peso, mal-tratada e violentada pela mãe abusiva e, se não bastasse, esperando o segundo filho de seu próprio pai. A simples sinopse é de lhe apertar o coração, ainda mais se lembrarmos que garotas como Preciosa existem por todo o mundo, ás vezes em condições ainda piores.


Porém - já que sempre há um porém - o filme em si não satisfaz.

É verdade que Mo'Nique brilha no papel de mãe de Preciosa, liberando sua agressividade de todas as formas humanamente possíveis. E que Gabourey Sidibe também faz um trabalho muito bom interpretando a adolescente em questão. De fato, os atores e personagens não fazem parte da lista de problemas e faltas do filme - não, não.

O problema principal foi o diretor - Lee Daniels - que, ao que me parece, resolveu que não queria deprimir tanto assim o público, o procurou de várias maneiras mascarar e suavizar a história. Observamos ao longo do filme, então, piadinhas fora de hora e uma trilha sonora eclética, que quase nunca combina com o que se vê. Também, uma irritante incerteza no enquadramento da cena e no uso da câmera - estamos em um filme indie francês, e então em um documentário do Michael Moore, e então numa novela das sete, e então em um filme hollywoodiano convencional demais, e então com uma hand-in camera fugindo do monstro Cloverfield enquanto este destrói a cidade de Nova Iorque.  Há cortes e ângulos bobos, que acabam, quando no todo, destruindo o tom do filme. É tudo muito incerto para podermos definir um humor, entende? Tentaram ser piedosos com o público, mas não foram bem sucedidos.

Essa é a minha opinião, se bem que este é um daqueles filmes que você simplesmente gosta ou não gosta. E, por não haver um meio termo aparente para este assunto, acabei entrando em uma longa discussão com amigos - que por um acaso, gostaram do filme. Fiquei, durante muito tempo, me perguntando se não estava de fato exagerando, me prendendo a detalhes, e que "Preciosa" é um daqueles filmes que se deve ver com o coração apenas e eu havia errado ao pensar que poderia assisti-lo com os olhos simplesmente.

Mas não. Não, não, não. Não, não. Não há nada de errado com o meu (carinhosamente apelidado de) "senso crítico exagerado" ou com as minhas "opiniões exigentes demais". Sabe como eu sei? Ora, pois eu vi o filme argentino "O segredo de seus olhos" e ele é, de certa forma, tudo o que Lee Daniels quis que "Preciosa" fosse e acabou não sendo. 

Ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, "O segredo de seus olhos" é um tanto quanto impiedoso. Porém, bem sucedido. No filme baseado no livro La pregunta de sus ojos de Eduardo Sacheri, o ator Ricardo Darín faz o papel de Benjamín Esposito, funcionário público aposentado que resolve escrever um romance sobre um horrível caso criminal que investigou enquanto ainda trabalhava no Tribunal Penal de Buenos Aires, vinte anos antes.

Juan José Campanella, o diretor, faz um trabalho excelente ao tentar não deprimir tanto assim o público. A história, tensa e agonizante, é muito bem amarrada e conduzida de tal forma que... uau. O bom humor presente é de bom gosto e pertinente. As piadas - de fato engraçadas - estão sempre onde precisam estar. A alternância entre os enquadramentos e o uso da câmera são compreensíveis e envolventes - combinam com as cenas e com os humores da história. Campanella é um gênio quando se trata de criar ângulos. Os atores são todos talentosos, e os personagens bem construídos. As maquiagens envelhecedoras são muito convincentes. A trilha sonora é delicada e - principalmente - pertinente.

É um filme de grande qualidade, verdadeiro merecedor de seu Oscar.

Portanto - se quer saber a minha opinião mais honesta - não perca seu tempo assistindo um filme pesado e triste que poderá não lhe satisfazer por conta de falhas de direção. Se quiser mesmo assistir um filme pesado e triste, assista "O segredo de seus olhos".

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"Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um deles é burro"
Mário Quintana