quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

D.R.

ele estava claramente nervoso. balançava as pernas, rasgava um guardanapo em pedacinhos, dava pequenos goles na sua água com gás, olhava para a entrada da padaria - e recomeçava. de repente se lembrava de algo,  retorcia a bochecha como se tentasse piscar um olho só e escrevia mais uma frase num guardanapo que parecia conter uma lista. roía as unhas, olhava para o teto. escrevia mais alguma coisa no papel. e recomeçava. 

então ela chegou. roupa social, como se tivesse saído de um escritório, mas cabelos loiros soltos e bagunçados, como se tivesse andado muito tempo no vento - e ventava bastante lá fora. entrou na padaria e logo o viu, abriu no rosto um sorriso aliviado, satisfeito. ele endireitou a postura, passou uma mão no cabelo enquanto a outra fazia um aceno tosco. suava. 

ela sentou na frente dele, contou-lhe uma coisa ou duas - o trânsito, a condução cheia, a chuva que vinha. e sorriu mais uma vez, aquele mesmo de antes. ele a olhava na transversal, desconfortável. estava óbvio que não ouvia tudo o que ela dizia. então, ela lhe perguntou se tudo bem. ele lhe mostrou o guardanapo
- cheguei aqui faz tempo. escrevi essa lista, achei treze motivos por que a gente tem que se divorciar. 

os ombros dela desabaram, os braços caíram ao seu lado. sua nova postura a fez diminuir muito de tamanho diante do homem agora de braços cruzados e costas eretas. eles se olharam por um minuto longo. silêncio. agora com as mãos sobre os olhos, ela chorava. e ele balançava as pernas, rasgava um guardanapo em pedacinhos, dava pequenos goles em sua água com gás, olhava ao redor. e recomeçava.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

3ª parada, Av. Consolação

era esquisito, sem dúvida. do jeito que andava pela calçada, cambaleava pela avenida, rastejada pela vida. os ombros tortos, como quem carrega peso, a mão esquerda balançando livre na altura do joelho enquanto a direita segurava o elástico da calça na cintura. e que cintura fina, magra, ossuda. vinha mancando, mal dobrava os joelhos, um pé aqui e outro alí nos chinelos de couro gastos. roupas escuras, sujas, rasgadas nas barras. poeira nos cabelos e barba. o ponto de ônibus, cansado, desconfiado, o observava se aproximar com o canto do olho. e ele vinha, fungando, respirando com dificuldade - a boca aberta, a tosse, o barulho úmido do nariz entupido. estava perto do ponto, que agora o encarava com frieza. parou de repente. fungou mais uma vez e deixou juntar na boca a mistura rançosa. malicioso, olhou aos pés no ponto. examinou os sapatos. fixou-se na senhora de sandálias, ergueu uma sobrancelha, exercitou as bochechas, posicionou os lábios e

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

#2

(Agora) permitia-se pender junto ao vento e vascilar com a maré. Neste vem e volta impreciso aprendeu, com cores vivas, a ter-se para si e entregar-se para os outros. Tudo muito novo, sentia-se sem ar diante do novo mundo que construía com carinho. No peito sempre ofegante, sempre pequeno demais para a vida que planejava, sentia um calor adocicado com amor, impaciência e alecrim.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Nota:

(a questão é outra, afinal ainda se sentia a mesma. via-se no mesmo corpo de menina, cabeça de menina, futuro desenhado à giz de cera - tal qual o de uma menina. mesmo assim olhavam-na agora como... não sei, havia sim algo diferente. não era desejo nem escárnio, mas um outro tipo de pecado, algo que sentia bater na sua pele, mas não ardia, não deixava marcas. apesar de não poder tocá-la, a diferença estava exposta, talvez até mais do que deveria.)

sábado, 31 de dezembro de 2011

doze

este ano não farei promessas, nem pedidos, nem planos. deixarei que o ano comece nessa calmaria, vou tentar aquietar no peito as expectativas e ansiedades. vou respirar fundo, finalmente.
dois mil e onze foi diferente dos outros passados. e por diferente quero dizer que tem um charme próprio e uma coleção de novidades que me deixaram satisfeita, feliz. vai-se em bom tempo, nonetheless - clímax no terceiro ato, musica tema, cortinas. agora é esperar pelo o que vem. 
em dois mil e doze tudo irá dar certo - e eu falo isso com a certeza de quem, em dois mil e onze, finalmente aprendeu que não existe "errado".

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O que o edredon não aquece

Os meus pesadelos são raros, esparsos e pouco definidos. Felizmente, da minha coleção de problemas para dormir, sonhos ruins não fazem parte do catálogo.

Tenho um pesadelo recorrente, porém, que de vez em quando faz uma visita só para ter certeza de que eu ainda não o esqueci. É normal, eu soube, estes sonhos que vêm de novo e de novo e tocam justo o seu ponto fraco. O meu, não que eu possa explicar, envolve vulcões.

É sempre o mesmo cenário - uma vila, com casas de pedra e chão de terra. Pessoas caminham de bicicleta. Eu, acompanhada de um pequeno grupo com algumas das pessoas mais próximas a mim - este grupo, sim, varia - passeio pela vila com os pés descalços, sem procurar nada específico. De repente, a vila esvazia. Não há mais ninguém por perto, nem os meus amigos. De alguma forma descubro que o vulcão está ativo e prestes a entrar em erupção. Perdia, solitária, não sei onde me esconder e começo a correr - pés descalços - para o lado oposto.

Tenho gravado na memória o barulho que a lava faz ao me perseguir, um tipo de som rochoso, unitom, muito alto. Eu corro, não olho para trás. O som cada vez mais alto, perturbador. A lava escaldante quase toca os meus calcanhares. Às vezes me alcança e eu fico só com um braço para fora, tentando me agarrar ao ar. Na maior parte das vezes, porém, acordo antes.

Não consigo explicar, qualquer tentativa é vã. Também não sei quando foi a primeira nem a última vez que tive este sonho. Mas está ai, meu companheiro...

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

to the beat

ando na rua com fones de ouvido. sempre. mesmo que seja até a padaria da esquina. qualquer coisa tocando, desde que seja um pouco mais harmônico que os carros pela avenida. gosto mais se a música tem uma boa batida, qualquer coisa com que eu possa ritmar os meus passos e neutralizar o resto da cidade. melhor ainda se a letra me diz algo em especial, para que eu me sinta tentada a olhar pelas ruas e procurar, lá fora, algo que traduza o que sinto aqui dentro. às vezes encontro, às vezes não. reconheço: é um péssimo hábito para alguém que já foi roubada no ônibus duas vezes - (em minha defesa, em nenhuma delas eu ouvia música). quando chego em casa, levo a bronca - anda ouvindo música!? não sabe como é perigoso!? o pior é que sei, sei sim. mas o que posso fazer? moro numa cidade ótima de viver, mas péssima de escutar. ou cheirar. ou ver.