quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Andar é reconhecer, olhar*
Ontem, andando por ali pela última vez do ano – pois finalmente foi o meu último dia de aula – e tomada pela nostalgia das despedidas temporárias, lembrei-me da primeira vez que passei por ali sozinha, logo no começo do ano. Sabe, este foi um ano de mudanças – cheguei afinal no primeiro colegial – e consigo me lembrar bem de como andava saltitando pelas calçadas, evitando as rachaduras do concreto, pensando preocupada no futuro incerto que viria. E foi ontem que eu finalmente percebi que ele veio, quase como eu havia imaginado. Claro que menos harmônico e “Julia-cêntrico” que o idealizado, mas veio, passou e acabou. Mas não é disso que quero falar agora, afinal demoraria demais e o ano não acabou ainda. Queria apenas dizer que me intriga muito o quanto eu me construí durante essas caminhadas, e que só percebi isso ontem.
O que acontecia é bem claro: passava a manhã na escola e convivia com pessoas, forçadamente ou não. Via e ouvia coisas que não me agradavam ou que me chamavam a atenção. Tudo isso em um ritmo bem rápido e contínuo. Em casa, tudo o que queria era esquecer tudo aquilo e ser apenas filha de meus pais por um pouquinho, até que teria que voltar às minhas atividades relacionadas à escola – que por acaso, me atormentaram o ano inteiro. Era apenas nessa caminhada que, livre, podia pensar, quase filtrar, tudo o que havia se passado de manhã. Um processo bem simples, formador de grandes opiniões que me apóiam hoje, me sustentando neste ballet de “sou-o-que-sou”. Muitas das afirmações que hoje faço com muita certeza são baseadas em conclusões a que cheguei enquanto andava sozinha da escola para casa. Engraçado, não? uma caminhadinha tão subestimada que me trouxe tanto para a alma!
* trecho da música "Primeiro andar", Los Hermanos
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Sensibilidade ou cultura?
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Breve esclarecimento sobre literatura africana
Sempre me impressionou a rapidez com que as coisas mudam. Em março, por exemplo, não poderia imaginar que estaria aqui hoje, escrevendo este post. Mas já que mudam assim, sem termos o mínimo controle, simplesmente acompanhar é a nossa única opção.
Desconsidere, antes de tudo, qualquer que seja a sua visão sobre literatura. Ignore, por alguns momentos, os “objetivos” que enxerga em qualquer produção literária. Pensar que livros são feitos somente para o divertimento do povo alfabetizado, para lhe servir de passatempo; escritos apenas por figuras excêntricas e reservadas, que gostam de questionar o mundo ao seu redor e lhe expor seus pensamentos íntimos, suas idéias e opiniões avançadas para as suas épocas; análise da sociedade; produtos feitos exclusivamente para o mercado – são todas visões parciais. Tipos idealizados de escritores foram criados, obedecendo tais objetivos. Paira um ar de classe média alta enquanto se pensa em literatura norte-americana. Da produção britânica, então, nem se fala! E é então que chegamos aos estereótipos africanos – vários países sofrem com problemas sociais, econômicos e políticos, e ainda há o bom e velho preconceito racial, para dar o toque final neste pacote de insensibilidades – que esbarram nas nossas imaginações e nos impedem de pensar em qualquer produção literária na África. Mas as coisas, obviamente, não são bem assim.
Angola, o país por nós estudado, fortaleceu a sua produção durante o período colonial, pois fez da literatura uma ferramenta de resistência, utilizando-a para a construção da identidade cultural angolana e na luta pela independência do país. Os intelectuais participavam efetivamente das guerrilhas, com armas nas mãos. Pepetela, intelectual angolano, fez de sua novela As aventuras de Ngunga uma ferramenta para a alfabetização e educação de guerrilheiros. Os "objetivos" da literatura angolana saem dos padrões por nós estabelecidos, e por isso pode nos parecer estranho uma produção literária feita para libertar um povo do regime colonial que os controla.
O escritor contemporâneo estudado foi Ondjaki, que nasceu após a independência angolana (1974) e, portanto não lutou em guerrilhas, mas escreve com um viés autobiográfico, narrando histórias de sua infância, indicando uma mudança na literatura angolana. Ao contrário do que se é dito, a literatura angolana pode sim ser considerada de muita qualidade, mesmo quando não relacionada com guerrilhas e lutas pela libertação. É quase um absurdo dizer que escritores angolanos podem apenas criticar e reinvindicar a situação social de seu país, sem poder inserir em seus textos, memórias e sentimentos. Ondjaki é uma prova viva disso.
Moçambique segue uma trajetória semelhante, pois também foi uma das últimas colônias portuguesas a se tornar livre.
A tese ainda continua. 30 páginas quase, com citações e uma bela formatação. Foi um longo, mas gratificante trabalho, que nos deu a possibilidade de escrever, hoje, um post em defesa à literatura africana. Não há mais justificativas para qualquer descaso ou desprezo; o básico lhe foi explicado. Não esperamos que se interesse por este assunto, assim como aconteceu conosco, mas peço pelo menos que perceba o que é a tal literatura africana, e o seu verdadeiro valor.
E não nos venha mais com comentários impertinentes.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Lágrimas e Klinex
Fazia tempos que não me entristecia assim. Já me era quase um sentimento desconhecido, clandestino em meu pequeno coração. Meu corpo via-se seco e esturricado por dentro, ligações internas quase rompidas. Talvez foi o desacostume, é verdade, que fez com que todas as cores parecessem borradas, e as linhas indefinidas diante de meus olhos mareados de lágrimas salgadas. Bochechas úmidas e nariz escorrendo, sentia os lábios entortarem com força para segurar qualquer outra lágrima que restava-me ainda pendurada nos cílios, que traria consigo uma outra longa enxurrada.
Sentava-me no escuro sozinha, patética - invisível porém. Dialogava com as sombras que via rondar os meus olhos, e aconchegava-me no quente do edredon amassado feito um colo carinhoso. O escuro respondia-me, tudo aquilo que desejava, ouvia de novo as palavras gaguejadas que saiam em um impulso incontrolado. E então, deixava-me ser no silêncio solitário, eu apenas e meus pensamentos. Terríveis pensamentos, que de vez em quando trazia-me de volta à memória todos os sofrimentos de momentos atrás, e dava de novo aos meus olhos motivos para transbordarem.
Fazia tempo, é verdade, que não me sentava naquela posição tristonha, e me encontrava de repente, com aquele tal espírito escritor que reside alguma parte de mim. Engordara, acredito eu, desde a última vez que nos encontramos nesta mesma situação. Pois foi quase instantaneamente que os meus dedos molhados de lágrimas enxugadas começaram a formigar. Sim, minha mão formiga sempre que tenho em minha cabeça, palavras exaltadas crescendo-se em frases emocionais. E as benditas palavras vinham me violentas, uma após a outra, em orações lindíssimas que acabaram por se perder na minha imaginação incontrolável. É-me normal, porém, perder idéias de repente.
Todas as lágrimas secaram, sim, e senti que meu nariz já não estava mais vermelho. Meus lábios, agora talvez, acompanhavam sussurrando as várias idéias que me brotavam no pensamento, nada que eu conseguisse perceber ou controlar.
Acho que então adormeci, vestida neste outro espírito que me toma nas horas mais inesperadas. Pois então não me encontrava mais no escuro, como antes havia me deixado. Não havia sombras ao meu redor, nenhuma, tampouco conforto. Estava ali apenas eu, em mais ninguém – incríveis ossos fracos, e uma pele sensível que mal os cobria. Mãos pequenas e grandes olhos, sim, foi isso o que vi enquanto me observava em alguma poça qualquer. Enxergava nas veias verdes o fluxo estranhamente lento do sangue quente e grosso. Só por isso soube que ainda vivia.
O cenário eu não entendo, até hoje. Procuro em lembranças, mas o que vejo, na realidade, são dois olhos enormes – meus, eu sei – que brilhavam com a mesma tristeza que fora derramada por todo o escuro compreensível. E não é que ainda lhe escorriam lágrimas, enormes gotas de água pesada, que contornavam as bochechas e pingavam pelo queixo, sem qualquer controle e sem mais nenhum motivo aparente, pois até esse já havia desvanecido. É só isso que me lembro, dores injustificadas e sem controle.
Sei bem que era um sonho. Pois é apenas em sonhos que os objetos mais desejados lhe aparecem nas mãos como em um passe de mágica – e em um movimento vi em minhas mãos um lenço de papel. Papel grosso, reparei com as pontas dos dedos ressecadas. Mas precisava secar as mágoas que me escapavam. E ao dobrar o papel da forma que sempre o faço – na metade, horizontalmente – vi palavras desenhadas em tinta azul, minha letra, por todo o papel. Frases, por mim mesma pensadas, que causavam-me ainda vergonha, mesmo quando lidas em silêncio para os meus próprios ouvidos. Sempre fui tão reclusa...
Mas relembrando as idéias e palavras que de mim um dia fluíram livremente, todas as mágoas exageradas que transbordavam de meus pobres olhos foram se tornando ainda outras idéias e palavras, frases ainda mais completas e histórias ainda mais significantes.
Sumiram quase todas, as lágrimas. Hoje, são-me raras. Mas o soberbo espírito escritor cresce mais e mais em mim todos os dias em que sinto aquela necessidade oculta de achar-me no escuro solitário das sombras reconfortantes. Os lenços portanto são agora usados em mais frequência – tenho até a minha própria coleção.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Dúvida
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
O pior som da música
A montagem brasileira do musical A Noviça Rebelde, ainda em cartaz, já levou milhares de pessoas às salas de teatro do Rio de Janeiro e São Paulo. Adaptado do filme de 1965 (de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II) a peça remonta com fidelidade a história de Maria Reiner, ex-noviça, ao se tornar babá das sete crianças von Trapp e se envolver na história de amor mais sincera de todas. O filme é deveras lindo, um dos meus favoritos de todos os tempos. Quem poderia esquecer, afinal, a graça de Julie Andrews no papel de Maria, sua harmonia com a personagem e – claro – a sua voz que traz às canções a paixão necessária. Julie, por si só, é o principal motivo do sucesso do filme, e nunca pensei que algo fosse capaz de estragá-lo. Até assistir a peça brasileira. Já sabemos que nada bom vem de adaptações, apenas talvez, quando estas juntam os originais com elementos exteriores, e conseguem criar uma coisa completamente nova. Então, podem até ser boas. O próprio filme é um bom exemplo, pois foi adaptado da peça da Broadway, que por sua vez foi baseada na vida real de Maria Reiner e Georg Von Trapp. Mas a montagem atual, bom, esta não se passa de uma adaptação mal sucedida mesmo...
Comecemos pelo começo: as músicas. Rodgers e Hammerstein fizeram um ótimo trabalho ao escrevê-las, e Charles Möeller e Cláudio Botelho fizeram um trabalho completo ao acabarem com toda a sua magia. Por todo o espetáculo, paira no ar uma forte impressão de que o Google Translator foi hiper utilizado. Por exemplo, na música “Maria”, que contém o verso “cabeça de vento/ biruta lelé/ tãn-tãn” TÃN-TÃN? Jura que não há nada melhor do que tãn-tãn? Ou então durante a “Dó-Ré-Mi”, conhecida e adorada por tantos, em que se podem encontrar coisas como “Lá é lá no cafundó.” E estes são apenas dois pequenos exemplos, não vou nem comentar como “Edelweis” teve o seu propósito e sensibilidade destruídos com a atuação de Saulo Vasconcelos.
Lembram-se quando falei de Julie Andrews, de sua graça, harmonia e quase perfeição? Pois então, Kiara Sasso não tem nada disso. Respeito muito a profissão de atores, principalmente atores de teatro que devem cantar, e apesar de todo o seu sucesso
Uma última observação. Na montagem brasileira, assim com na de Broadway, a Baronesa Schraeder e o Tio Max cantam. Têm duas ou três musicas que expressam suas superficialidade e ganância. No filme, porém, eles não cantam. O que é ótimo, pois parece trazer um argumento a mais – e bem importante – para justificar o amor e casamento de Maria e Georg. Afinal, ela trouxe de volta a musica para a vida dele, fez ressurgir a sensibilidade que há muito se escondera. Os dois juntos, mais os sete filhos, são a Família de cantores Von Trapp. Se a Baronesa canta, ela pode fazer parte da família, e tudo o que resta para tentar juntar Maria e Georg é o amor puro, e este não tem a menor graça. É errado fazer a Baronesa cantar, se a não-cantoria dela faz muito mais sentido.
Como já devo ter dito antes, A Noviça Rebelde é um dos meus filmes favoritos. Devo ter o assistido umas nove vezes e meia, o que dá em torno de 28 horas de minha vida. Isso pode ter interferido na construção de minha opinião sobre a peça, é verdade, mas mesmo assim foi completamente insatisfatório.