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terça-feira, 20 de abril de 2010

Aquela quase náusea


Digamos que são tempos remotos.
Considere um mundo saudável e limpo, uma sociedade igualitária e pacifista. Pense em uma unanimidade conquistada através de debates tranquilos. Transparência, razão e fé sempre muito equilibrados. A sensibilidade e a tolerância presentes em todas as ocasiões, em proporções razoáveis. Imagine estrelas no céu, noite após noite, milhares por pedacinho considerado.
Agora, inverta tudo.


Digamos que é tempo, imediatamente agora.

Considere a humanidade perdida em meio a tanta ambiguidade caótica. Pense em uma raça inteira retrocedendo, movida pela ganância e o cinismo. Pense em um mundo morrendo, em ruas sujas e violência. Uma juventude inconsequente e imediatista, valores subvertidos, excesso de informação mal interpretada.

Imagine o pobre personagem principal de nossa história, vendo tudo isso acontecer diante de seus olhos puros e desprotegidos, sentindo-se pequeno e insuficiente enquanto inúmeras soluções passavam pela sua imaginação.

Sabe por que tudo isso? Sabe por que essa história é sobre ele, e não seu vizinho?

Ora, pois ele – e aparentemente apenas ele – ainda se importava com o mundo ao seu redor. Sim, e magoava-se com as nuvens cinza que preenchiam os céus. Cada ferida do mundo ardia intensamente no seu enorme coração. Existem outros com ele, eu sei, espalhados por aqui e ali, mas hoje, é ele que me importa. Por quê? Pois eu, e talvez somente eu, conheço a história daquela única noite em que se sentiu pronto para desistir do mundo como o tinha – e acho que todos deveriam saber o que foi que o impediu.

Incansável, afinal, permaneceu através da noite, sentado em sua velha escrivaninha defronte a janela. A noite abafada passava por ele, nem uma brisa sequer havia o alcançado. Abraçava os joelhos bem perto do peito, seu nariz escorria irritantemente, mas ainda não sentia vontade de fazer algo para impedi-lo. Já não mais chorava, se é isso o que pensa. Na verdade, as lágrimas haviam cessado há algum tempo e apenas o nariz manteve-se, teimoso.

De súbito, levantou-se pisando por entre folhas e livros. A mesa rangeu, mas decidiu ignorar – havia decidido que iria ignorar coisas a partir de agora. Quando bem o desse vontade, fingiria não ouvir e pronto, ninguém o faria mudar de posição. Ajustou a postura - costas eretas, cabeça erguida observando bem longe a vida na cidade. Sentiu-se grande de onde estava, mais alto do que o mundo, bem acima do nível mundano. Olhou para baixo, para a calçada quase escura que se estendia vazia ao que pareciam anos-luz de sua janela. Assustou-se. Um calafrio lhe percorreu a espinha, sentiu o estômago gelar. Vertigem, tontura, quase medo. Fechou os olhos e respirou fundo, esqueceu-se ali por alguns segundos.

Calma, só não pense que é assim que nossa história acaba – não, não. Tudo isso é apenas relevante pois, exatamente naquele momento – de pé em cima da mesa – o nosso personagem principal começou a perceber o quão insano havia sido nas últimas horas, enquanto sentara-se sozinho em seu quarto escuro, revisando e reconsiderando todos os aspectos de sua vida. Conhecendo-se tão bem quanto julgava conhecer, sabia que nunca iria cumprir com as promessas que havia se feito. Afinal, se conseguisse, era assim que as coisas seriam: ele, voluntariamente aprisionado em seu quarto enquanto a vida acontecia lá fora. E até se aceitaria em um mundo particular – seja essa qual fosse – e ignoraria as consequências. E as dores e sentimentos. Não era disso o que precisava, e o que sempre o diziam?, precisava de uma dose um pouco maior de egoísmo no sangue para viver a vida direito.

Afligia-se ao pensar na cena, ao pensar na possibilidade de se tornar mais um desses que agora tanto adorava criticar. Sabia que nunca seria capaz de fazer algo do tipo, não apenas por vergonha mas também por falta de caráter. Havia vivido tempo demais dentro de sua pequena bolha para saber como agir de acordo com a tal malandragem inconsequente de que tanto falava. Era-lhe tarde demais.

Virou pelos calcanhares, olhou para o quarto penumbrento com os olhos entreabertos. Sua cama amassada esfriava estática, a cada minuto que se passava com ele na janela. A porta fechada, bem na sua direção, o guardava a salvo de um mundo de questionamentos e comentários infames - por que estava de pé em cima da mesa? havia chorado? Tudo isso porque se importa! O altruísmo está lhe fazendo mal à saúde, coitado... 

Coitado. Coitado! Inquietava-se até, forçava-se a respirar fundo. Preferia não pensar sobre isso agora.

Considerou por alguns minutos: se não pensasse sobre isso agora, pensaria sobre o que então? Nada mais passava pela sua mente senão a expressão enrugada de seus conhecidos entortando a cabeça e o chamando de exagerado. Naquele momento, não conseguia sentir mais nada senão fraqueza, pois sabia que estavam todos certos, e que a culpa seu sofrimento, no final das contas, era toda sua mesmo.

Mas o que podia dizer para explicar-se? Sabia que havia considerado – e até se prometido, há apenas alguns minutos atrás - mudar uma ou duas coisas em sua conduta e forma de ver o mundo. Teria de treinar-se e controlar-se, claro, mas conseguiria e eventualmente os benefícios viriam para lhe confirmar tudo o que sempre lhe disseram - assim tudo seria bem melhor.  Sabia também, entretanto, o quanto era insano, por motivos já esclarecidos nos parágrafos anteriores.

Desceu da mesa e andou até o meio de seu quarto. E então, não sabia mais para onde ir. Ficou parado ali mesmo, envolvido pela escuridão maciça, quase como um abraço fofo que aos poucos de desmanchava.

Aquela sensação, a que causara toda essa situação desconfortável, era recente. Lembrava-se de um dia não ter se importado, e de ter vivido a sua vida paralelamente a dos outros. Não era desde sempre que sentia aquela quase náusea ao ver seus colegas comportando-se como animais, selvagens e incontroláveis, para esconder evidências de atos delinquentes – lembrava-se tão bem da cena que até o fazia mal: um homem de quase dois metros de altura, parado bem à sua frente com uma postura consideravelmente respeitosa e lambendo os pulsos literalmente, para apagar provas de sua desonestidade. E as mentiras – bom, e as mentiras? Sabia muito bem o peso de seus argumentos nessa posição, sabia muito bem o quanto podia criticar, mas não podia evitar chatear-se!

Foi até a sua cama, deitou-se. Preferia deitar-se quente e confortável a ficar parado no meio de seu quarto, esperando com que esses seus pensamentos tristonhos fossem embora. Porém nada mais estava quente, e a sua falta de sono o aborrecia.

E o que fazer agora?  O que queria mesmo era levantar-se, caminhar até a rua, e talvez ainda não parar de caminhar até que encontrasse com a vida dos outros, longe o bastante de seu quarto e de sua consciência – queria apenas, por uma noite em sua vida, ser como todo mundo e não enumerar, a cada suspiro dado fora do compasso, todas as consequências que tal ato o traria mais tarde. Mas as coisas não eram assim, não era esse tipo de pessoa.

Não.

Era do tipo de pessoa que não se levantaria, e continuaria a remoer-se com as mágoas que não sabia como e a quem expor. E então, sabia bem, em seguida adormeceria tendo em sua mente que o amanhã sempre está por perto e que pode até – talvez, quem sabe? – ser um daqueles dias em que o sol brilha, e várias nuvens brancas flutuam no céu azul, e os pássaros cantam lindas canções... 

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sonhos Gélidos

Eu sonho. Poxa, espere. Mas que afirmação mais boba esta que acabei de fazer... É claro que sonho, não? afinal, como pode ver, eu tenho sim em mim esta mania por palavras repletas de sensações gerais e altamente reconhecíveis. Mas o leitor sabe o que aquela primeira frase significa, certo? Acredito que como qualquer ser humano, compreende a velha necessidade de convencimento que se apodera de mim neste momento, e sabe como palavras ajudam com a cura de problemas como o meu. Pois ponha em uma frase e só pode ser verdade, não? E por ser verdade, é normal e certo – na maioria dos casos, pelo menos, e é isso que quero: generalizações. Passarei, afinal, o resto destas páginas descrevendo a quem lê quem é esta que lhe escreve, e este autocentrismo exagerado a que me submeto agora me enoja. Mas, voltando àquela tentativa desesperada – e falha, por sinal – de reafirmação, bom, peço-lhe perdões sinceros por isso. Se lê, espera mais do que angustias. Se bem que elas já me são tão grandes e pesadas, que despir-me de todas seria em demasia trabalhoso. Deixe-as aqui, sim? Disfarçá-las-ei com este meu embalo nauseante.


Deixe-me tentar de novo: outro dia sonhei. E me assustei com a realidade apalpável e o suor frio que me entregava ao pouco desespero imoral que ainda não havia me engolido. Via-me deitada em um enorme gramado, mato alto e verde. Algumas flores espalhadas pelo terreno traziam um tom mais romântico à imagem. A enorme macieira, cuja sombra me envolvia, emprestava ao ar a sua leveza diurna. Nuvens, estas tão densas e brancas que pareciam invenções de uma cabeça desocupada. O Sol brilhava forte, mas não conseguia vê-lo. O céu azul só se mostrava por entre falhas que as nuvens cometiam. Pássaros, talvez quero-queros, rodeavam-me com o seu doce cantar, penas brancas e pretas e pernas finas. Ainda nesta parte sabia que era tudo sonho. A irrealidade da beleza que se mostrava diante dos meus olhos era tanta, que tinha certeza absoluta que eram apenas imagens criadas. Foi só quando me levantei e arrisquei um passo – grande erro. Claro que não sabia que era um erro. Via-se em meu rosto apático a pura intenção de um leve avanço à frente. Inocente eu sou, sinceramente juro. Pois não foi que aquele meu passo me levantou em direção aos céus, como se subisse uma escada, passo por passo, cada vez mais alto. Foi indolor esta ascensão, praticamente instintiva. Apenas subia, olhando para frente e seguindo o ritmo que me foi imposto pelo meu próprio senso de obrigação – cega-me, devora-me.

Pisava ainda no último degrau quando um forte vento me carregou para longe. Este vento eu senti. Gelado, atravessava minhas roupas e esfriava meus ossos. Lábios secos, petrificados enquanto os olhos semi-abertos e incrédulos lacrimejavam. Encontrei-me na altura das nuvens. Estas também me engoliam, densas porém frágeis. Vou lhe contar: de perto são ainda mais brancas, e o seu toque, tão cheio de ternura quanto um gole de chá quente em uma tarde de inverno. Mas fazia muito frio. E por mais que as nuvens me abraçassem, não havia como impedir a petrificação imaginária de meus pobres músculos. Não conseguia senti-los, não conseguia movê-los. Mas sentia, porém, algo de errado. A altura me trouxe medo, e o frio, aflição. O vazio do céu e o constante fracasso na procura de conforto nas bobas nuvens me deram a insegurança costumeira da solidão. O vento rachava-me a pele, o ouvido zumbia com a pressão e meus olhos ardiam com a claridade. Doía-me tudo. Foi então que desconfiei que já não mais sonhava. Via com tanta clareza a ponta roxa de meus dedos e sentia o seu toque em minha bochecha ressecada. A violência com que o vento balançava meus pesados cabelos me dava certeza de que era tudo real. Sentia-me real, e, por mais dolorida que estivesse só me importava com o coração gritante que palpitava acelerado por algo que não a simples adrenalina, mas sim algo incrivelmente semelhante com o desespero.

Aposto que já conhece o velho discurso de poetas amadores: enquanto a dor me engole, meus dedos se desesperam por uma caneta. Sim, toda sensação extrema se transforma nos mais lindos poemas, e os mais sensíveis são quase sempre os maiores poetas. Mas não é por causa dos ferimentos ardentes que lhe escrevo este texto. Tampouco por causa dos batimentos acelerados que meu coração tão inocentemente desconhecia. Acredito que era isso que esperava aqui, uma reflexão dos mais intensos sentimentos que pulsam em minha memória enquanto lhe escrevo estas várias palavras. Mas não. Não lhe escrevo pela dor, pelo menos não desta vez. E também não lhe garanto dor na próxima história, pois esta nem existe. Pois, talvez você já saiba, histórias são imprevisíveis. Altamente instáveis. Dinamites em uma tempestade de raios, barco a velas em um tsunami. Catastrófico? Calma, todos sempre saem ilesos. Ou quase. Mas isso também não depende só de mim. As histórias são involuntárias e, os personagens, independentes. Apenas organizo-os e descubro os melhores adjetivos para descrevê-los. É isso que faço. Ás vezes erro, ás vezes não, mas cada conto que escrevo me gasta um pedaço de vida. Acabo-me em confitos imaginários. Mas continuo a escrever. Sim, claro. Talvez seja um rato de laboratório que nunca aprenderá o caminho do labirinto. Pareço-lhe teimosa – bom, de novo, eu escrevo, não? E escrevo esperando o fim, quando todas as palavras já são definitivas e a história não precisa mais se apoiar em mim. E é então que assisto o papel dobrar-se, sem graça, e as palavras, imortais, serem esquecidas enquanto seus significados são friamente reutilizados. Escrevo-lhe para ter o alívio de uma parte de mim exposta cruelmente e esquecida com frieza. Saiba: somos todos lagartos. A cada parte que se perde, uma nova nasce no lugar. Somos humanos, imaginativos. Podemos fazer destas partes o que bem quisermos. Se errarmos, escrevemos e nos libertamos do sofrimento de ter em si um peso morto que nos consome, afunda-nos com violência no que quer que seja isso que se estende debaixo de nossos pés. Se gostarmos, abraçamo-as com orgulhos e as chamamos de opinião. Estas também podem ser escritas, mas sem tanta ternura ou alivio – e não se perdem nunca.

Deu-me dor, aquele sonho, é verdade. E mesmo segura e agasalhada em minha confortável cama, sentia meus ossos tremendo de frio, meus orgãos falhando de medo. Mas não foi então que me assustei. Pois se dizem, afinal, que sofrer nos garante o reconhecimento da vida, estão repletos de razão. E o vento, enquanto todo um monólogo se montava em minha cabeça, levava-me para ainda mais alto. Enquanto palavras bonitas se formavam em mim e então se expunham ao léu, eu subia para além das nuvens. Foi o vento, eu lhe digo, que me levou para tão longe, e devo-lhe dizer ainda, é linda a vista lá de cima. As nuvens se organizam como se em um fofo tapete, as falhas desapareceram. Via-se apenas um mar de algodão branco, que me separava do pacato mundo que lá embaixo deixara. O vento fez-se como em um colchão para me sustentar durante a calmaria infinita. Já era meu amigo. Não havia mais turbulências, frio ou qualquer medo. Na verdade, havia apenas a imensidão de nada que se esparramava por além do que a vista alcançava. Comecei a sentir um – como se diz? – crescente vazio apoderando-se de meu corpo e me invandindo com força, uma sensação de vácuo se criava em meu estômago e caminhava pelas veias. Que não me incomodava, de maneira alguma. Percebi que existia apenas quando gritei, só para o mérito da experiência, e claro, nenhum som saiu de mim. Pode ser um tanto abstrata esta imagem que tento construir com as simples palavras que exponho, pois é dificil para alguém que nunca esteve nesta posição imaginar estar acompanhada do vazio e nada mais. Pensei então em um exemplo figurativo, e se pudesse fazer um curta-metragem com o que sentia naquele momento, ele seria assim: uma tela preta. Disfaraçadamente se tornando mais escura enquanto os segundos pareceriam demorar demais para passar. Ao alcançar o mais denso dos escuros, a cena acabaria. Nem letreiros subiriam.

Convenci-me de que sonhava, encontrei em mim a certeza absoluta de que era apenas minha imaginação pregando-me uma peça. Mas claro, a certeza era como aquelas de sonho, que não são mais do que uma vaga impressão intutiva. Sentia em mim, porém, uma pontada afiada – Dúvida – certeira e incessante, incomodava. Não me mexia há algum tempo já, e a falta de movimento aborreceu-me. Todas as palavras que há pouco surgiam em mim, desapareceram de repente e pareciam não voltar. Todas as frases que montava agora me pareciam feias e vazias. O nada conhecido começava a parecer violentamente opressor, e me sentia diminuir dentro daquilo que sou. A dúvida permanecia inalterada e algo mais começava a brotar daquela situação. Era desespero aquilo que agora respirava. E medo, talvez, da longa permanência naquele mesmo lugar. A angústia me devolveu às nuvens. O vento voltou a ser gelado, e o frio foi sentido com alívio. Crescia em mim o conforto frenético de saber estar completa, e sentia pulsar a mais pura certeza – certeza de verdade, agora – de ser real, sensações passeavam por entre as veias escondidas na carne densa de meu corpo livre – sim, estava livre de tudo. O que não é liberdade, afinal, se não a singela possibilidade de movimento. Movimentos arbitrários, espontâneos, meus. E naquele momento, de novo pendurada nas nuvens, a liberdade alongava-me o corpo e me devolvia a voz que há muito não se ouvia. Sim, o frio me violentava de novo, e a solidão das alturas fazia de meu coração pesado, com a culpa de origem completamente desconhecida. Olhava-me, curiosa para descobrir quem afinal me tornara acima das nuvens, mas só encontrava infelicidade estampada nos meus gestos; debaixo de meus olhos sentia a humidade gelada de lágrimas derramadas inconscientemente. Mas, lindas palavras voltavam a surgir em minha cabeça, idéias brotavam do nada e se instalara agora em minha mente, e as nuvens até me sediam um espaço para o grito. E gritava com o prazer de sentir a liberdade raspando em minha garganta, enquanto saia de meu corpo para me abraçar e proteger do frio. Ouvia-me bem, o som já rouco e sempre desesperado, banhado na melancolia da vida instável – os gritos ouvidos davam-me leveza. E a leveza, por sua vez, trouxe-me tranquilidade suficiente para poder imaginar, naquilo que era tudo o que gostaria de ser. Sim, a imaginação também existe nas nuvens, e fez-me bem poder ter em mim mais do que sensações fatuais e dores, mas invenções reconfortantes. Perigosas, eu lhe digo, não são as imaginações desmedidas e viciantes, mas o imaginado enganado que se transforma para além do que se sabe possível – lembre-se disso. Finalmente, ainda voando muito alto do chão, uma invasão de satisfação preencheu todos os buracos que a angústia cria em nós. Tendo esta felicidade pulsando aguda em mim, confortei-me com as alturas que me deram vida, acostumei-me com a ternura transparente das nuvens. A liberdade continuava a ter em mim um abrigo, a voz ainda queria sair, forçosa, pela minha garganta indestrutível. Era agora bem mais alta, grave, dominante... Poxa, acho que afinal não sonhava.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Lágrimas e Klinex

Fazia tempos que não me entristecia assim. Já me era quase um sentimento desconhecido, clandestino em meu pequeno coração. Meu corpo via-se seco e esturricado por dentro, ligações internas quase rompidas. Talvez foi o desacostume, é verdade, que fez com que todas as cores parecessem borradas, e as linhas indefinidas diante de meus olhos mareados de lágrimas salgadas. Bochechas úmidas e nariz escorrendo, sentia os lábios entortarem com força para segurar qualquer outra lágrima que restava-me ainda pendurada nos cílios, que traria consigo uma outra longa enxurrada.
Sentava-me no escuro sozinha, patética - invisível porém. Dialogava com as sombras que via rondar os meus olhos, e aconchegava-me no quente do edredon amassado feito um colo carinhoso. O escuro respondia-me, tudo aquilo que desejava, ouvia de novo as palavras gaguejadas que saiam em um impulso incontrolado. E então, deixava-me ser no silêncio solitário, eu apenas e meus pensamentos. Terríveis pensamentos, que de vez em quando trazia-me de volta à memória todos os sofrimentos de momentos atrás, e dava de novo aos meus olhos motivos para transbordarem.
Fazia tempo, é verdade, que não me sentava naquela posição tristonha, e me encontrava de repente, com aquele tal espírito escritor que reside alguma parte de mim. Engordara, acredito eu, desde a última vez que nos encontramos nesta mesma situação. Pois foi quase instantaneamente que os meus dedos molhados de lágrimas enxugadas começaram a formigar. Sim, minha mão formiga sempre que tenho em minha cabeça, palavras exaltadas crescendo-se em frases emocionais. E as benditas palavras vinham me violentas, uma após a outra, em orações lindíssimas que acabaram por se perder na minha imaginação incontrolável. É-me normal, porém, perder idéias de repente.
Todas as lágrimas secaram, sim, e senti que meu nariz já não estava mais vermelho. Meus lábios, agora talvez, acompanhavam sussurrando as várias idéias que me brotavam no pensamento, nada que eu conseguisse perceber ou controlar.
Acho que então adormeci, vestida neste outro espírito que me toma nas horas mais inesperadas. Pois então não me encontrava mais no escuro, como antes havia me deixado. Não havia sombras ao meu redor, nenhuma, tampouco conforto. Estava ali apenas eu, em mais ninguém – incríveis ossos fracos, e uma pele sensível que mal os cobria. Mãos pequenas e grandes olhos, sim, foi isso o que vi enquanto me observava em alguma poça qualquer. Enxergava nas veias verdes o fluxo estranhamente lento do sangue quente e grosso. Só por isso soube que ainda vivia.
O cenário eu não entendo, até hoje. Procuro em lembranças, mas o que vejo, na realidade, são dois olhos enormes – meus, eu sei – que brilhavam com a mesma tristeza que fora derramada por todo o escuro compreensível. E não é que ainda lhe escorriam lágrimas, enormes gotas de água pesada, que contornavam as bochechas e pingavam pelo queixo, sem qualquer controle e sem mais nenhum motivo aparente, pois até esse já havia desvanecido. É só isso que me lembro, dores injustificadas e sem controle.
Sei bem que era um sonho. Pois é apenas em sonhos que os objetos mais desejados lhe aparecem nas mãos como em um passe de mágica – e em um movimento vi em minhas mãos um lenço de papel. Papel grosso, reparei com as pontas dos dedos ressecadas. Mas precisava secar as mágoas que me escapavam. E ao dobrar o papel da forma que sempre o faço – na metade, horizontalmente – vi palavras desenhadas em tinta azul, minha letra, por todo o papel. Frases, por mim mesma pensadas, que causavam-me ainda vergonha, mesmo quando lidas em silêncio para os meus próprios ouvidos. Sempre fui tão reclusa...
Mas relembrando as idéias e palavras que de mim um dia fluíram livremente, todas as mágoas exageradas que transbordavam de meus pobres olhos foram se tornando ainda outras idéias e palavras, frases ainda mais completas e histórias ainda mais significantes.
Sumiram quase todas, as lágrimas. Hoje, são-me raras. Mas o soberbo espírito escritor cresce mais e mais em mim todos os dias em que sinto aquela necessidade oculta de achar-me no escuro solitário das sombras reconfortantes. Os lenços portanto são agora usados em mais frequência – tenho até a minha própria coleção.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Dúvida

Seu rosto espinhoso se alongava em frente ao espelho comprido. Seu cabelo oleoso se formava como se duas grandes ondas em sua testa, grudadas às orelhas. O Sol do fim da tarde batia em seu rosto, fazendo seus dentes amarelados quase bonitos. Mas não se importava agora com qual aparência estava, já que projetos de lágrimas se acumulavam densas nas beiradas de seus olhos. Importava-se bastante, porém, com o tom exageradamente vermelho que o seu nariz assumira nos últimos segundos, acompanhando a marca ridícula que se formava ao redor de sua boca, igualmente vermelha como um batom mal passado, sempre que ameaçava chover. Seus lábios pareciam inchados, e seus olhos, menores. Sentada na cama, a certa distância do espelho, observava seu corpo dobrado, assustada com a estupidez da situação. A porta fechada dava-lhe a segurança para chorar os prantos que lhe viessem em segredo, mas a cabeça vazia não permitia pressa. As lágrimas presas sequer molhavam seus curtos cílios, e o nariz que fungava também não mostrava mais do que um blefe. Lembrava, sim, qual era o motivo pelo o qual deveria estar se acabando em prantos naquele exato momento, mas não conseguia mais sentir o motivo empurrando-lhe as dores para fora. Então encarava o espelho como se pudesse reviver com os próprios olhos vermelhos os momentos anteriores, para talvez, com alguma força extra, pudesse chorar de uma vez e acabar com tudo aquilo. Olhava para o rodapé encardido, uma grossa camada de poeira o encobria, e pensava na frustração que seria ter de caminhar daquele quarto, sorrateiramente, com o nariz e boca marcados com provas da tristeza, mas sem ter derramado nenhuma lágrima sequer. Passeava o olhar perdido pelo quarto, procurando algum passatempo para mantê-la trancada ali – vai que a sensação volta – e encontrou pendurado na porta do guarda-roupa, como sempre, algo que sem querer lhe interessou. Não havia nada de diferente, mas tomada pela sensação de vingança que subitamente substituira a tristeza, sentiu seu sangue subir ao rosto e enrubescer as bochechas enquanto encarava o que não se passava do colar favorito da outra. Presente seu, em alguma data comemorativa que já não se lembrava mais qual era, o colar colorido já havia sido visto muitas e muitas vezes pendurado no pescoço da outra. Queria vingança? Sim, mas não sabia que era isso que aquecia seu corpo e empalidecia o nariz até o seu normal. Pois se lembrava muito bem – e como havia de esquecer – dos longos dias que passavam no silêncio que tomava conta de todos os cômodos da casa, sugando todo o ar saudável do ambiente e transformando as mais longas tardes em puros momentos de tortura. Poderia haver palavras, se quisesse, mas seriam todas devolvidas com um tom afiado que lhe machucaria mais. O silêncio era apenas asfixiante, as palavras eram golpes de adagas nas mãos desprotegidas. E por mais que lhe implorasse uma explicação, sabia que não lhe seria direta, apenas um olhar torto que a faria se questionar, talvez, para sempre – era aquilo, afinal, sua culpa? Não poderia ser, e esta sua negação desesperada parecia-lhe tão ridícula que a fazia acreditar que sim, ela causara aquilo. E sua insensibilidade era, inclusive, tanta, que não conseguia nem perceber o quanto era culpada. Perguntava-se, confusa, se deveria implorar-lhe perdão e misericórdia. Os dias se passavam engolindo saliva seca, tomando a coragem para o contato direto e uma resposta inimaginável. Mas, trancara-se no quarto. E começavam a surgir pensamentos controversos, que questionavam a própria certeza incerta que lhe palpitava no coração. Sabia que não era insensível. Sabia que não poderia ser sua a culpa de tão súbita crise. Afinal, não tinha nem a força em seus ossos para causar problemas tão grandes. Era pequena, sim, de mente e de alma. Fraca para os parâmetros por si estabelecidos para sua motivação e comparação. Não era competitiva, só queria ser maior do que o mundo. E naquele momento, enclausurada opcionalmente, não sabia mais se poderia ser maior do que o mundo. A dúvida incessante que lhe martelava a moral e a fazia questionar de si ou da outra o tempo todo, cansava-a. Não queria mais essa vida de incertezas e sufocamentos. Não. Segurava com as mãos meladas as miçangas coloridas do colar da outra. O suor de suas mãos não era nervoso, mas tirava do corpo o excesso de raiva que se formara lá dentro. Era demais para tal corpo frágil. O rosto agora ainda mais pálido do que o normal guardava o olhar intenso que procurava inconscientemente no quarto fechado alguma forma cruel de vingança. Inconseqüente se sentia, e a fazia bem. A janela aberta foi o último lugar para o qual olhou. Estavam a muitos metros de altura, e com um pouco da força que sabia que poderia encontrar em si na hora certa, poderia jogar o precioso objeto para a rua que se estendia na frente do prédio velho. Não haveria evidências, restos, sujeira. Era apenas jogar. Pôs se de pé em frente ao espelho, não duvidou da força física, não pensou na negligência. Na frente da janela, com o Sol banhando-lhe o torso e cabelos compridos, e esperando ainda para aquela força a encontrar, esmagou o colar em suas mãos agora também geladas. Não a machucou, não o danificou. Demorou-se em frente à janela aberta, olhando para os carros que lá embaixo passavam em alta velocidade. A vingança parecia-lhe injustificável, mas necessária. Aquela dúvida a perturbava há dias agora e o silêncio formou-se como um bloqueio em uma garganta. Precisava de um barulho, provar-lhe que sim, ainda ouvia, uma interrupção à tortura discreta. Não seria exagero, certo, querer acabar com o questionamento que a maltratava. Mas ainda estava, porém, com o colar preso em sua mão, a força não havia a alcançado e as dúvidas aumentavam e mudavam de forma, enquanto a velha certeza se desmanchava e uma decisão precisava ser feita. Sabia agora, com certeza, que seria em demasia exagerado, mas já estava na metade do caminho. Os colares pendurados na maçaneta da porta balançavam naturalmente enquanto ela se observava no espelho, suas maçãs do rosto rosadas, olhos secos e brilhantes.

domingo, 16 de agosto de 2009

O dia em que a noite não veio

Eram férias de dezembro, alguns dias antes do Natal, se não me engano. Minha irmã mais velha segurava em seu colo o meu pequeno irmão agitado, que resistia bravamente a todas as nossas sugestões de obedecer a rotina estabelecida nas noites dos dias letivos: banho, janta, sono. Fazíamos proposta, chantagens, mas o miúdo gritava "Não!" para tudo o que dizíamos. Foi então que, já se pendurando de ponta cabeça nos braços de minha irmã, o pequeno jogou sua ultima carta: "Mas não está nem noite ainda". É verdade, olhando pela janela e vendo o Sol alaranjado brilhando baixo no céu roxo, nem se desconfiava que já se passara das sete e meia há muito. A resposta foi rápida e tão astuta quanto a jogada da criança: "É porque é verão, querido. É dia mesmo quando é noite."
Boom!
Ah, a simplicidade da frase, a inocência da fala. Meus irmãos nem desconfiavam que martelava agora em minha cabeça uma imagem, bem forte, de um grande terreno, gramado verde e bem cuidado, e uma casa enorme e térrea, mais ou menos no meio do terreno. Uma grande varanda haveria nesta casa, tomando conta de toda a sua frente, e nela, balançando em uma cadeira que não balançava quando nova, um senhor de mãos fracas e cabelos brancos, finos. Aos seus pés, crianças, várias. Observavam o céu noturno que se derretia com o Sol brilhante. No rádio, alguma voz rouca e abafada diria "é dia mesmo quando é noite". Era um conto. Sem personagens ou nomes, apenas uma narração cansada - esta, minha mesmo - de certos acontecimentos que trariam consequências, não sei se para ti, mas com certeza para mim.
Naquela noite, quando fui dormir, já havia esboçado em minha cabeça o conto, que escreveria e postaria no meu blog no dia seguinte. Não tinha título ainda, mas pensaria nisso depois. Meu irmão, que se rendera ao sono há muito tempo, respirava o ar pesado do quarto escuro, ruidoso, ressonava o pequeno. Adorava estes momentos, que respirava fundo no meio de seu sono e se mexia na cama, como se completamente mergulhado em sua, aparentemente, pequena imaginação. Sentei na cama e pensei, ainda não sei por que pensei, que há muito tempo não tinha um sonho que conseguisse me lembrar de manhã.
Boom!
Pois naquela noite mesmo, enquanto a temperatura vacilava, os gatos miavam e a noite existia, sonhei um sonho que consegui lembrar de manhã. Estava eu - com meu corpo, minha cara, minhas mãos e cabelos - em uma livraria. Era escura como a Fnac, mas lotada como a Livraria Cultura. Vi, bem no meio da loja, em uma daquelas estantes que servem para chamar-lhe a atenção para lançamentos, um livro de capa azul royal, letras brancas e grandes. "O dia em que a noite não veio" dizia, com o meu nome escrito embaixo. Estranho, sei que pensei. Arrisquei-me, abri o livro, e a lá Coração de Tinta, encontrei-me em uma casa muito parecida com aquela que havia imaginado antes, só que menor, com apenas um quintal e em uma rua movimentada, com várias casas parecidas. Uma mulher lindíssima cortava cenouras na cozinha, enquanto outra assistia e lhe fazia perguntas. Ouvia, ao longe, uma narração aflita. Observei enquanto a história se contou na minha frente, sempre acompanhada da mesma voz carente, até que, ao chegar ao fim, os cenários se desmancharam. Ouvi congratulações de meus pais, e meu irmão, agora adolescente e cheio de espinhas, dizia-me que "até que curtiu".
Quando acordei naquela manhã, com gritos suaves de meu irmão que, já impaciente, mas ainda criança, queria que eu acordasse para que pudéssemos sair, lembrei-me daquele sonho, junto com pensamentos como: será que tenho agora um título para o conto? Escovava os dentes, ainda meio dormindo, rindo-me do sonho louco que havia tido - e que conseguia me lembrar muito bem. Foi então que me brilhou uma ideia: fazer daquilo um livro, de verdade. A minha proposta original para mim mesma, era, claro, esperar vários anos até que, com a cabeça já convencida de que escrever é possível para todos, escreveria o livro e nadaria em prazer ao ter meu nome reconhecido nas livrarias de São Paulo. Bateu-me, de repente, outro pensamento (Boom!), este mais arriscado. Um choque de adrenalina correu pelo meu corpo, e me olhei no espelho me perguntando se havia mesmo pensado naquilo: por que não escrever o livro agora? Ideia absurda, óbvio, porém muito atraente, e me acompanhou o resto do dia. Sabe, para qualquer pessoa com medo da ganância, um livro inteiro é um passo grande demais para ser feito de uma vez só, mesmo para aqueles que arriscam um conto de vez em quando.
Passaram-se alguns dias, Natal, Ano Novo, 16 de janeiro, e então 17 e 18, e de vez em quando pensava na tal ideia. Até que me resolvi, escreveria um livro, mas em segredo. Contaria apenas para aqueles que eu achava que gostariam de saber, e só depois de tê-lo pronto em minhas mãos. Claro que não deu certo. Pois presa nessa ansiedade de escrever algo tão significativo em minha vida ainda tão curta, não conseguia pensar em um nome para a minha personagem principal, aquela mulher lindíssima. Guardando o segredo com todas as minhas forças, perguntei às minhas amigas "quais nomes gostavam, mas não poriam em suas filhas". Disseram-me vários, rejeitei-os todos, até que, como se do nada, uma amiga disse "Maria Iolanda"
Boom!
E o rosto que tinha imaginado tornou-se ainda mais completo e claro. Nome e rosto se combinaram em uma harmonia que não podia negar. Yolanda seria o nome da personagem principal do meu livro. A outra, bom, esta também era importante, mas ainda não tinha forma. Encarnei - sim, em mim mesma - a voz aflita que acompanharia a história. Dei-me a responsabilidade de fazer parte da história. "Escritores mudam de forma, transformam-se ao escrever" ouvia a voz de uma antiga professora de português ecoar em meus pensamentos. "Você pode ser o que quiser" ouvia uma apresentadora de um programa infantil de TV dizer no final de seus programas diários. Passei a ter em mim, guardado e escondido, outra pessoa que se parece muito comigo, mas que tem em si algumas diferenças sutis e julgadoras.
Cansei de tê-la em mim, sugou-me uma parte de minha alma e grudou-a no papel, mas hoje, respiro de novo, sozinha, o ar inspirador que respirava antes, sozinha.
Pois hoje está pronto. Ou quase. Não sei se já tenho em mim a coragem de imprimi-lo e ter, em minha próprias mãos, o resultado apalpável de minha dedicação e trabalho. Concretizá-lo seria acabar com todas as minhas chances de desistir de tê-lo. Acho que, mesmo depois de tantos meses, ainda não me acostumei em ter em mim mesma um espírito escritor corajoso. Permita-me ser covarde por mais um tempinho, muito curto eu prometo, e aproveitar os últimos segredos que guardo.

sábado, 20 de dezembro de 2008

A fonte dos desejos

Fechei meus olhos bem apertados, até que nenhuma luz pudesse entrar e segurava a moeda bem firme em minhas mãos, esquentando-a. “Faça o seu pedido,” dizia a placa “respire fundo e jogue a moeda por atrás do seu ombro direito.” A água cristalina mostrava milhares de outras moedas, que reluziam com a luz forte do sol e a grande imagem do Buda esculpida na parede atrás da fonte trazia o tom cômico á situação. Ao meu redor, pessoas riam e jogavam as moedas como se estivessem jogando pão aos patos, rindo sem controle e sem amor. Respirei fundo, era difícil escolher algo para desejar a uma fonte. E eu, logo eu, que quero tanta coisa.
“Eu sinceramente gostaria de ter uma forma de ligar e desligar tudo ao meu redor, inclusive o tempo e o ritmo do mundo. Queria poder chegar ao fim do dia sem preguiça, chorar sem ter culpa. Queria poder prever o futuro, ter tempo de analisar a situação, ter mais tempo pra pensar e também, tomar as decisões certas. Queria saber quais são as decisões certas, e por quê. Queria passar mais tempo sozinha e que os outros pudessem passar mais tempo comigo.
Queria me conhecer melhor, me surpreender mais. Queria conhecer melhor as pessoas ao meu redor, e que elas me conhecessem por completo. Queria poder ler mentes, que a minha fosse facilmente lida. Queria não ter toda essa imaginação, ou que as minhas invenções se tornassem reais. Queria que as pessoas vissem meus sonhos, queria que todas me entendessem, e perceber que elas me entendem sim. Queria ter a liberdade de não ser levada a serio.
Queria poder controlar a minha vida, meu futuro, as pessoas ao meu redor. Queria que algumas coisas desaparecessem e poder reescrever algumas histórias, mas sem perder a experiência. Queria ter completa noção de tudo.
Queira viver do talento; queria ter um talento.
Queria ter o orgulho para me arrepender e não ter essa vergonha de me ter por vencida.
Queria que compreendessem todas as minhas palavras, e que me explicassem o que elas querem dizer. Queria não ter medo, não hesitar, não mentir, não me enganar.
Queria entender o que eu quero; compreender o que é saber.
Queria algo que ninguém mais quer.
Queria sempre me lembrar que é querendo que sei o quanto estou viva.”
Terminei de fazer o meu desejo e joguei a moeda por trás do meu ombro. Ela bateu na beirada da fonte e caiu no chão, fora da fonte. Deixei-a lá mesmo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Retardamento Emocional

Tinha a impressão que havia mais peixes do que água. Ao sol do meio dia, podiam-se ver através da água barrenta milhares de olhos prateados, que brilhavam atenciosos. De vez em quando, via-se um vulto ou dois se mexendo rapidamente, causando bolhas ou trepidações na superfície daquele lago tão pequeno. As libélulas e as moscas se aproveitavam da tranqüilidade das águas para descansar suas asas. Do lado de fora, camuflados pela grama, velhos e gordos sapos viviam com a sua cantoria perturbadora, gozando da falta de atenção dos bichos.
Não era muito grande, mas era – certamente – o lago mais bonito de todos. Era delicado e intenso ao mesmo tempo e os peixinhos acrescentavam um tom caseiro àquele ambiente tão selvagem. Até mesmo as formigas eram diferentes, amigáveis e cuidadosas e até esperavam algumas horas antes de atacar a carcaça de algum animal morto, para mostrar respeito. A quietude do lugar era o seu principal charme. A bizarra ausência de grilos fazia com que a música dos sapos e das moscas ficasse mais simpática, misturada com o farfalhar das folhas das poucas árvores que haviam por ali. Um pouco da magia do lago vinha junto com a sensação de abandono total por seres humanos, já que era quase inabitado pela raça superior. Porém, havia sim humanos, como sempre. Na verdade, neste caso era apenas um homem, inofensivo e pacifico que gostava de ficar na beira do lago e apreciar o que podia. Era o único que parecia entender aquele lugar, podendo então, frequentá-lo. Entretanto, aquela simples pessoa não era mais do que um ser humano, que se enganava achando que podia entender a natureza e a magia, pensando não fazer nenhum mal quando apenas parado ali. Mal sabia ele.
Todos os dias após o almoço, o homem pegava a sua vara de pescar, a sua mochila térmica cheia de água potável e iscas vivas, alguns livros e ia para o lago, que não ficava muito longe de sua casa. Em todas as tardes o velho descia a ladeira, passava pelo meio de uma floresta mal formada, pisando em folhas secas e poças d’água, caminhando bastante até chegar à área do lago. Sempre que ele chegava lá ele respirava fundo e sorria para tudo aquilo, orgulhoso de poder estar em um lugar que ele não construiu, mas que fazia parte de sua alma do mesmo jeito. Fazia sempre o mesmo caminho e colocava a sua cadeira sempre no mesmo lugar.
Os peixes já ignoravam a isca que ele jogava na água, de tão acostumados que estavam daquela rotina. Os sapos sabiam que não deveriam se aproximar do lugar onde o homem costumava colocar a sua cadeira e as libélulas e moscas contornavam a trajetória da vara de pesca mesmo quando ela não estava lá. As formigas se continham no outro lado do lago para não serem pisoteadas e até mesmo a grama já desistira de crescer por todo o caminho que o homem fazia.

Foram-se mais de trinta anos com a mesma rotina. Era tudo um vício, uma dependência fortíssima. A carência enlouquecia e, sem ter o lago a sua frente, o homem adoecia. Adoecia de corpo e alma; seu coração palpitava e começava a sentir uma pontada bem onde a saudade divide lugar com a razão. Sua moral se abalava um tanto e o pobre velho desmaiava, sem força alguma.

O lago trazia, de fato, uma sensação revigorante, que até nauseava os desavisados. Sua brisa fortificava a memória e imortalizava a sensações. Era um formigamento que subia dos dedos dos pés até os fios de cabelo.

Era impressionante.

No entanto, o humilde homem nunca tinha parado para notar se algo havia mudado, apenas pelo simples fato de achar que era desnecessário, entanto o homem não sabia que o necessário está em algum lugar entre o imaginário e o real.

E como era esperado desde o começo da história, o lago foi perdendo a sua magia, enquanto os bichos começavam a agir da forma que deveriam, mordendo iscas, matando, atacando.

O velho, sendo o que era, só achou que havia algo errado quando sentiu que o formigamento havia diminuído notavelmente, mas não, não acho nem um pouco bizarro quando os peixes morderam as iscas ou quando grilos apareceram com a sua cantoria. E foi quando ele, sentado de frente ao lago, respirou fundo e não sentiu nada que tudo ficou claro.

Sim, ele adoeceu. Passava mal durante os dias e através das noites, sem encontrar remédio ou cura. Nada conseguia aliviar aquele desespero. Então, a “triste hora do fim se faz notória”, enquanto o perdão é inconcebível e a culpa é solteira.

O homem sabia muito bem que tudo aquilo era culpa dele – sem eufemismos ou disfarces, era a óbvia culpa – então, enquanto enfraquecia lentamente sozinho e triste, chorava lágrimas de decepção, e se sujava com o remorso que o consumia.

Contudo, já era tarde.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A memória eterna

Já era fim da tarde. Ela tinha se levantado rápido demais da cadeira, e por isso, tudo girava. A pouca luz que iluminava o estacionamento era suficiente apenas, as lâmpadas dos postes não estavam acesas ainda e a noite se aproximava mais rápido do que nunca. As árvores estavam paradas por causa da falta de ventos daquela tarde de verão, e os pássaros se reuniam nos fios elétricos suspensos por toda a rua.

Não havia nenhum barulho ou movimento. Estava tudo tão bonito.

Ela fechou os olhos e desejou, com toda a sua vontade, que aquele momento pudesse durar para sempre. Lágrimas quase caíram dos seus olhos quando viu que os pássaros iam embora, um por um, enquanto um avião passava em cima de sua cabeça, fazendo o maior estardalhaço.

Bom, na memória ele dura, ela pensou e foi se deitar.

sábado, 25 de outubro de 2008

Não esqueça o mar

Ela estava sentada na sua mesa, de frente à janela encarando o mar. Segurava firme a caneta e a sua mão suava. O papel branco à sua frente a esperava quieto, e toda vez que ela o olhava, estremecia mais um pouco.
Tomou coragem e escreveu as suas primeiras palavras. Riscou-as com insatisfação. Respirou fundo e retomou a escrita, sabia que ia doer, mas aquilo era preciso.

Sabe que por muito tempo sofri com a saudade do teu abraço, com a falta do teu cheiro e com o frio que o seu toque antes protegia, mas que agora me atinge brutalmente, sem nem ao menos avisar.
E também percebe que ao ir assim, sem nem dar espaço ao remorso, deixou para trás milhares de desejos mal planejados, e pesadelos que me acompanham pelos dias que se passam tão calmamente. Entende que a incerteza que ficou comigo é pior que as memórias e as fotografias que ainda ficam penduradas, por causa dessa minha falta de coragem de tocá-las.
Dói-me escrever essa carta, sabendo que depois a rasgarei em mil pedaços e a jogarei pelo ar, esperando que alguma parte lhe alcance, em qualquer que seja esse lugar onde está.
Gosto de pensar que fugiu para a cidade grande, para algum lugar com muitas pessoas parecidas, onde facilmente se perdeu em meio de tantos outros que lhe cercam. Gosto de pensar que lá, eu não te encontrarei e que lhe confundirei com qualquer um do resto do bando.
Mas em meio de tantos sonhos e hipóteses não posso esquecer-me do mar, lindo mar azul que me cerca e que me traz o conforto que antes era teu, mas que agora não é de ninguém. O mar, lar de tubarões e peixes palhaços, que poderia o ter levado para bem longe, onde pudesse se esquecer no meio das águas límpidas, onde a memória – e a consciência – já não mais se alcança. Gosto de pensar que as ondas me trazem o que restou daquilo que um dia foi teu e que a noite me murmura palavras de amor, com aquele ritmo tão calmo e sedutor.
Não me esqueço que é no mar onde abrigo nossos sonhos, que o levou para longe de mim, que jogou sal nos meus olhos e depois me abraçou carinhosamente. Não me esqueço que eu o desprezo com todo o meu carinho.
O mar carrega todas as minhas dores e lembranças. Então não se esqueça você, que no mar, você me encontra.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O grande lucro

O bar estava como sempre, cheio e quente, com o seu incomparável zumbido de mil vozes. Quinta feira, fim da tarde, tudo era uma grande bagunça, pessoas gritando com os garçons que, nervosos, faziam ainda mais erros que de costume, risos histéricos de pessoas já um pouco alteradas e aquele cheiro de cerveja pelo ar.

Já se passava das seis, e seus cinco amigos o esperavam para contar e dividir os lucros do dia, já sentados em uma mesa perto à janela, cada um com o seu copo já meio vazio e impacientes. Estavam quase desistindo e indo para casa quando ele entrou no bar todo sorridente, como uma criança que acabou de ganhar uma caixa de presente com laço de fita.

Sentou-se na mesa calmamente e pediu uma bebida para um moço que passava. Este lhe devolveu algumas palavras mal educadas, afinal não era garçom coisa nenhuma. Seus amigos riam, e ele, sem perder a pose, vestiu a sua melhor cara de superior e disse, não me importo com a bebida, hoje ganhei coisa melhor. Todos os homens pararam de rir imediatamente e apoiaram seus cotovelos na mesa, curiosos para ouvir a história.

Ele bebeu um gole da bebida de seu colega, que nem se mexeu de tanta expectativa. Gozando da situação, reclinou-se na cadeira de plástico, limpou as unhas na camiseta suja, coçou a cabeça e limpou a garganta. Os seus amigos já mortos de curiosidade se cansaram de esperar a sua boa vontade e começaram o questionário.

"O que é? Ganhou boa coisa hoje?" um deles o perguntou. Ele apenas tirou do bolso as três moedas que tinha ganhado naquele dia. "Não mesmo" respondeu. Os cinco se mexeram nas suas cadeiras. Um coçou a cabeça, outro pôs a mão no queixo, outro olho para o teto. Eles até ignoraram a pequena quantia entregue.

"Então você conheceu alguém?" perguntou outro, o que segurava o queixo, piscando um olho como quem sugere malandragem. "Sou casado, rapaz" foi a resposta indignada.

"Já sei o que houve! Você apareceu na TV." este se reclinou na cadeira e cruzou os braços sobre a barriga, esperando a glória. "Eu? Nem de longe!"

As idéias foram acabando, seus amigos começaram a se render e a implorar pela história real. Ele, ria com a glória de quem pode, adorando todos os momentos em que ele tinha o poder.

Finalmente, depois de muitas promessas e propostas, limpou a garganta mais uma vez e tomou mais um gole da bebida de seu amigo, que de novo, não se moveu. Apoiou seus braços em cima da mesa e cruzou os seus dedos. Abriu a boca, formulando a frase em sua cabeça, mas fechou-a de novo. Os cinco outros, imitavam a sua pose, cada um se aproximando dele o máximo que podiam, para poderem ouvir todos os detalhes. Então ele, finalmente, começou. "Imaginem só, eu lá na minha rua. Fechou o farol, eu me levantei e fui até o primeiro carro, ofereci a bala, fiz a propaganda que pude, mas o moço não quis nem abaixar o vidro. Fui então para o segundo carro, vi que haviam umas crianças sentadas no banco de trás, mas assim que elas me viram, esconderam as bolsas embaixo do banco e então eu fui embora. Quando fui para o terceiro carro, a janela estava fechada e havia uma moça dirigindo sozinha. Ofereci a bala com todo o carisma que consegui. Ela me olhou nos olhos, fez não com o dedo e me deu um sorriso. Um sorriso tão bonito, sincero. Me fez sentir um calor assim, subir no meu peito. Eu fiquei tão feliz, que voltei a me sentar na calçada e fiquei lá a tarde inteira, pensando no sorriso da moça. Aquilo fez o meu dia."
Houve um grande silêncio. "Só isso?" um deles perguntou.

domingo, 5 de outubro de 2008

Ciranda da Bailarina

Gosto de poder sentir o orgulho e superioridade raspando na minha garganta toda vez que encontro uma oportunidade para falar, em alto e bom tom, Sou bailarina sim, com meia-calça e sapatilha. Salto, danço, rodo, caio confiando nos meus humildes pés. Mas ser bailarina é muito mais do que simplesmente dançar.

É mais do que sentir as pernas latejando mas não desistir em momento algum. Alongar o corpo até o extremo, mesmo que isso te faça sofrer. Saber que todo este sofrimento só resulta em beleza, beleza raramente percebida do jeito que merece. Beleza em troca de dor. Beleza em troca de aplausos. Aprender a esquecer que os aplausos podem ser mera polidez, e não entusiasmo verdadeiro.

É mais do que aprender a arte de fingir nunca errar, atuar com perfeição, esconder as sensações, não se conformar com o bom. Arte de não se importar com a cãibra que te invade, mas com o pescoço alongado.

É mais do que se acostumar a sorrir sorrisos amarelos e magoados quando lhe dizem que o Ballet não pode ser tão difícil assim. Saber se controlar quando lhe perguntam se é verdade que o Ballet é uma arte em decadência. Aprender a tratar destas feridas abertas com nada além da dança.

É mais do que poder sentir a glória de virar duas pirouettes. Ver a sua perna subir até bem próximo do seu rosto. Sentir o alívio único de poder se segurar na barra com as duas mãos e jogar o seu peso para trás com os dois pés firmes no chão, costas retas, joelhos esticados e a sensação de poder, por um instante, confiar nas suas mãos. Acreditar que você é capaz de tudo.

Desafiar a gravidade, sentir dores desumanas, descobrir um outro lado da vida, saber não se orgulhar, aprender não se importar com a falta de interesse - ou de elogios.

Tudo isso para poder subir em um palco e ver que tudo vale a pena. Tudo isso só para poder dizer aos outros que você é uma bailarina e sentir aquela indescritível sensação de quem sabe que está fazendo a coisa certa.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Ser

Tenho medo de me conhecer por inteiro. Tenho medo do resultado. Pode ser que eu seja uma pessoa muito boa, muito ruim, ou um nada.O que me dá mais medo é saber que as minhas chances de ser nada são iguais as minhas chances de ser algo bom.

No ônibus velho e barulhento éramos ao todo seis. O motorista, concentrado em uma distração, o cobrador que dormia e eu que observava as outras três pessoas.
Havia uma moça de unhas vermelhas e cumpridas. Mãos entrelaçadas sob as pernas, olhava para o céu escuro pela janela. Respirava ofegante. Sentava-se a minha direita umas três fileiras para frente.
Um homem deitado no banco, logo atrás da moça. Tinha a cabeça encostada na janela e o pé pendurado da perna apoiada. O pé se mexia de acordo com o sacolejo do ônibus. Os braços cruzados sob o peito. Estava encolhido, como se estivesse com frio. Olhava para o chão no meio do corredor do ônibus. Mal parecia respirar.
Logo atrás dele, do meu lado, mas do outro lado do corredor, havia uma senhora. Com uma simplicidade elegante, olhava para frente apenas, talvez sem ver nada. Segurava nas mãos a alça da bolsa e um terço de madeira. Sua serenidade assustava.
Já eram altas horas da noite, e o ônibus continuava seguindo, balangando os pensamentos daquele povo. Só queríamos chegar em casa. Foi um passeio longo aquele. Vínhamos de longe. Os quatro subiram no mesmo ponto, decididos. Isso já fazia muito tempo. Horas, eternidades. Vimos pessoas entrarem e saírem, subirem e descerem. Juntos ou sozinhos. Mas nós ficamos ali.
Sim, ficamos.
Já àquele ponto éramos uma família. Ou poderíamos ser, se nos desligássemos dos nossos pensamentos por um instante sequer. Mas e eles, o que será que pensavam? Eu sabia no que pensava, e gostava. Mas eles?
Será que pensavam na vida? Não consigo entender porque se pensa na vida. Não é como se achará alguma solução para qualquer coisa. São apenas devaneios sem sentido. Nem pensamos nas coisas boas da vida. Por que será? Pode ser porque estas são usadas e desperdiçadas assim que se atiram à nossa frente. As coisas boas são modos de se sair da depressão. Ou modos de se entrar na solidão, ignorância, confiança.
Com as coisas ruins aprendemos. Aprendemos a não sentir, para não sofrer. As coisas boas acabam todo esse aprendizado. Coisas boas não servem para nada.
A noite estava bonita, a lua crescente. Havia algumas estrelas no céu. Olhei para as unhas da moça. Vermelhas, longas e bonitas. Então vi as minhas curtas e sujas. Olhei os sapatos do moço, sujos, velhos, cheios de buracos. Então vi os meus limpos, novos e inteiros. Olhei para a senhora e vi um auto controle, uma serenidade absurda. Então senti a inveja subindo pelo meu corpo, como uma onda violenta.
O ônibus balançava de um lado para o outro. Cantava um pouco também.
Perto do meu ponto levantei-me e apertei o botão. Os outros três também. Descemos no mesmo ponto e caminhamos para a mesmo direção.
A senhora olhava para frente, concentrada, porém em qualquer outro lugar. O moço chutava tudo que lhe cruzava o caminho. A moça caminhava calmamente olhando para baixo. Equilibrava-se inconsciente nos saltos altos que pisavam fortemente na calçada quebrada.
Parei na frente da minha casa. Abri o portão e entramos. Eu, a moça, a senhora e o moço. O moço fechou o portão atrás de si.
Ouvi o despertador tocar.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

A Lua no Lago

A noite estava escura e ele se sentia sozinho. O reflexo da Lua grande e redonda brilhava no lago vazio. A fogueira estavala com as suas últimas labaredas e o vento cantava suavemente. Seus cabelos e cobertor que o mantia quente balançavam, como em uma dança estranha. Estava tudo muito quieto e mesmo assim, barulhento.
Olhava para cima e só conseguia ver as estrelas que brilhavam no céu escuro, como um sopro de purpurina em uma cartolina preta. A Lua estampada nas águas do lago não existia no céu.
Pegou o violão que estava deitado no chão perto de seus pés e dedilhou um acorde. A musica dos insetos era muito mais bonita. Jogou o violão no fogo e respirou fundo. "Por que acabei de jogar o violão do meu avô no fogo?" pensou cansado, mas como não conseguiu achar uma boa resposta, voltou a olhar a Lua no lago.
Nunca tinha visto reflexo mais bonito. Era a Lua mais estranha que já tinha visto antes. Redonda, brilhante e misteriosa. Perfeita dançarina nas águas escuras.
Pegou alguns gravetos que estavam ao seu alcance e jogou-os no fogo também. Agora as labaredas eram altas e laranjas. "Estou cansado de abóboras" disse em voz alta, mesmo sem saber por quê.
Olhou para atrás, mas só conseguiu ver as sombras das árvores. A Lua do lago ainda era a coisa mais bonita daquele lugar. "Não posso esquecer de colher aqueles morangos que nasceram na macieira" lembrou de repente, com um certo nervosismo.
A Lua no lago continuava linda. O céu continuava estrelado. Tudo era igual o tempo todo.
Tirou os sapatos e jogou-os na fogueira, junto com o cobertor. Encarava a Lua no Lago com uma paixão que nunca tinha sentido antes. A Lua era a melhor coisa que já havia lhe acontecido.
Entrou no lago com deixando a água chegar a altura de seu umbigo, pescou um peixinho prateado que passava por lá. Segurou-o bem forte com as duas mãos até que ele parasse de se debater.
Olhou para a Lua mais uma vez, mas desta vez ela não estava perfeita. Ela estava estragada. Havia um pedaço faltando, um pedaço em forma de peixinho

sábado, 2 de agosto de 2008

Echarpe vermelha

E lá estava eu. Naquela noite escura e fria, na ponta da ladeira, na frente do meu carro, que estalava de vez em quando para estragar o silêncio que me envolvia. Olhava para as estrelas, mas não achava o que procurava. A grande resposta que esperava. Lá na frente à cidade. A mais linda vista. A cidade toda iluminada, os prédios, os carros, as pessoas que continuavam com suas vidas, que cumpriam a rotina sem hesitar, seres humanos, com leves sentimentos, nada que se possa chamar de verdadeiro.

A vida passando diante de meus olhos. E eu lá. Sem fazer nada. Somente, tentando pensar em algo, tentando me concentrar. Mas era muito difícil. Há certas coisas que te atordoam para sempre, que você não consegue tirar da sua cabeça. O problema é que eu não conseguia lembrar o que tinha se passado. Olhava no meu relógio a cada 5 minutos, mas não conseguia lembrar o horário. Só conseguia lembrar que era uma quinta-feira, e que tinha acordado para ir trabalhar, mas algo aconteceu e eu acabei indo para a casa de Alice.

Fiquei lá como petrificada. Uma buzina distante me acordou. Lembrei porque estava lá o que tinha feito de tão horrível que não conseguia nem pensar. Eu tinha feito uma coisa tão terrível que nenhum ser humano seria capaz de fazer. Se é que eu poderia ser chamada de ser humano.

Tinha ido para a casa de Alice para pegar a minha echarpe vermelha que tinha deixado lá no dia anterior. Estava saindo quando ouvi um grito vindo de dentro da casa. Vi, então, um homem todo de preto, Alice no chão, no pé do sofá, com sangue nas mãos e no rosto. Percebi uma arma no chão perto de mim. Sem ele notar a minha presença, e sem pensar no que fazer, pequei a arma e puxei o gatilho. O homem caiu no chão com um berro. Aliança no dedo, garrafa na outra mão. Seu rosto me era familiar, mas estava atordoada, e não conseguia lembrar quem era. Era o marido de Alice. Bêbado, e na minha frente morrendo. Mas, o pior detalhe eu guardei pro final, a coisa mais assustadora da historia inteira. Alice, meu querido leitor, era minha cunhada.

(Este foi o primeiro texto que escrevi por vontade própria, e que gerou todos os outros que estão dentro e fora deste blog)

terça-feira, 29 de julho de 2008

História de um João Inexistente

Eu sou João, e eu existo sim. Eu sei que é bem confusa essa história de que um cara que existe escreve uma história sobre alguém que não existe, sendo que esse alguém sou eu mesmo. Sem metáforas, eu não existo mesmo. Mas a história de como eu virei um inexistente em uma longa tarde de verão é simples, e pode ser facilmente contada.
(Alguns detalhes importantes para a minha inexistência são que eu tenho trinta e quatro anos e moro com a minha mãe. Não trabalho, já que a minha mãe me sustenta fazendo salgadinhos de festa para encomenda. Nunca pus o pé na rua, porque sempre tive preguiça e nem um pouco de curiosidade, e minha mãe nunca me forçou a sair de casa. Com isso pode-se concluir que não tenho amigos, e que fui educado em casa com um professor particular.
Tenho muita preguiça de fazer coisas que julgo desnecessárias, então não as faço. Por isso não conheço o chão embaixo do sofá , não abro a geladeira desde os meus cinco anos e não leio jornal.
Tenho manias estranhas e as pessoas me acham esquisito.)
Desde pequeno eu gosto muito de leite com chocolate. Eu sei que todas as crianças gostam, mas eu tenho uma relação especial com leite com chocolate. É mais do que apreciação, é uma paixão verdadeira, quase uma obsessão.
Para mim, leite com chocolate é mais do que uma bebida, mais do que uma refeição. É uma invenção divina, a água dos deuses. A mistura de leite integral com as duas colheres e meia de sopa de chocolate em pó feita dentro da caneca da minha falecida avó, mexida com uma colher de alumínio, com movimentos anti-horários apenas, que a minha mãe faz assim que eu toco o sininho de prata é tão harmoniosa que me faz lacrimejar! (Porém, se não for feito assim é só uma gororoba qualquer.)
Um dia eu acordei com a estranha vontade de abrir a geladeira - e foi aí que tudo começou. Assim que abri a porta pesada, me deparei com uma caixa de leite aberta, e nela estava escrito "Semi-desnatado". E ainda haviam mais oito caixas iguais, fechadas, quietas na prateleira de baixo. Meu coração quase parou.
Corri para o quarto, onde encontrei minha mãe consertando forros de almofadas. Contei do ocorrido e ela ficou mais assustada com o fato de que eu tinha aberto a geladeira do que com o que estava escrito na caixa de leite. Pelo menos foi o que ela me disse, acompanhados de "e é claro que está escrito 'semi-desnatado'. É o tipo de leite que eu compro desde que você começou a falar. Quem mandou ficar vinte e nove anos sem abrir a geladeira?"
Percebi que ela estava falando sério. Com um pouquinho de ironia, mas sério de verdade. Foi então que ouvi um pedaço de mim se soltar do meu corpo e cair no chão, quebrando-se em milhares pedacinhos. Parte de minha história morreu naquele momento. Como assim? Quer dizer que a minha bebida maravilhosa de leite integral com chocolate em pó na verdade era de leite semi-desnatado? Que nojo de mim mesmo.
Respirei fundo, segurei minhas lágrimas e decidi sair de casa (afinal, antes tarde do que nunca, né) e ir até a "loja da esquina", onde minha mãe costumava ir todas as semanas me comprar bala de morango.
Marchei para fora do quarto e pela primeira vez na minha triste vida eu passei pelo portão de entrada da minha casa. Devo confessar que tive um pouco de medo. Virei a direita e andei determinado até a esquina, mas tudo que encontrei lá foi uma casa parecida com a minha, e que não era a "loja da esquina".
Juro que ouvi outro pedaço da minha alma se quebrando, virando pó.
Quer dizer que a "loja da esquina" fica na esquina da esquerda! E em toda a minha vida eu imaginei que ela ficava na direita. Nos meu sonhos e fantasias minha mãe sempre virava a direita. O tom de voz que ela a usava para me contar sobre a "loja da esquina" me apontava à esquina da direita.
Mas, sem problema. Só mais uma coisa que me caracterizava como "João, o existente" que desapareceu, mas como já disse, sem problemas. É só me controlar bastante, que as lágrimas não caem dos meus olhos.
Cruzei o quarteirão, a procura da "esquina da esquerda" e da "loja da esquina", que aparentemente ficavam no mesmo lugar.
A "loja da esquina" era um lugar muito simpático. Um grande balcão, várias prateleiras com várias coisas estranhas e coloridas. Atrás do balcão havia um homem barrigudo, com algo que parecia um lápis atrás de sua orelha, que conversava com um magrinho mal-humorado que sentava em um banquinho de madeira do seu lado, com os braços cruzados e os olhos fixos no chão.
Me aproximei do balcão, me apresentei como João, falei que era filho da minha mãe e que gostaria de um saquinho de bala de morango. E por favor. O barrigudo e o magrinho se entre olharam e esboçaram um sorrisinho como se soubessem algo sobre mim que eu não sabia.
"Sim, eu sei quem é a sua mãe, mas nós não vendemos bala de morango". Com essa revelação não ouvi nada se quebrar. Na verdade, só fiquei confuso. Da onde vem a bala que eu venho comendo durante todos esses anos?
"Tem bala do que então?"
"Nós temos de framboesa, e é desse tipo que a sua mãe compra para você toda semana, desde os seus quatro anos." O mal-humorado me disse com desprezo na sua voz.
Então eu ouvi mais um pedaço da minha alma cair no chão e se despedaçar. E ao passar do dia ia ficando cada vez mais inexistente. E surpreso.
Quer dizer que por toda a minha vida comi bala de framboesa achando que era de morango, bebi leite semi-desnatado achando que era integral, virava direita ao invés da esquerda, acreditava em A quando era B! Basicamente, vivi trinta e quatro anos de mentiras! E depois de tudo, o que me caracterizava como João... Simplesmente não existe.
Voltei para casa comendo minhas balas de framboesa que eu comprei na "loja da esquina da esquerda" pronto para enfrentar a minha mãe. Estava pronto para brigar com ela! Afinal, como se pode dizer para uma criança de quatro anos que ela não precisa ir para a escola se está com medo dos meninos - mais novos - que roubaram o lanche dela.
Ou então concordar com uma criança que não quer mais sair da própria casa, porque ficou traumatizada quando pisou no cocô de cachorro que não estava fazendo nenhum mal a ninguém.
Bati o portão da entrada, entrei batendo o pé dentro de casa. Abri a porta do quarto da minha mãe com toda a vontade que tive. Ela estava sentada na cadeira perto da janela, bordando. Parecida tão inofensiva.
Amoleci um pouco. Quase fiquei quieto, mas lembrei da pessoa que aquela mulher havia criado e que não existia mais. Lembrei de como eu tinha acabado de descobrir como ela era malvada.
Então eu gritei com ela.

Fui dormir naquela noite sabendo que abraço não mata e que sou adotado.

sábado, 26 de julho de 2008

O gato, o rato e a morte

Enquanto encarava os azulejos brancos, mas encardidos da parede em minha frente, pensava cada vez mais sobre Estella. Estava naquela posição há algum tempo e a cadeira de plástico rangia toda vez que batia o pé no chão Já era conhecida lá no hospital. Eu era a visitante do quarto 134, que aparecia todos os sábados vinte minutos antes do horário de visitas começar, só para poder sentar na mesma cadeira, na mesma posição, ouvir os mesmos barulhos e encarar a mesma parede suja.

Estella era paciente terminal já há algum tempo. A moribunda mais insistente que já conheci. Tinha um desejo incontrolável pela vida, e nunca desistia do sonho que, um dia, ia por os pés na rua de novo, mesmo sabendo que só vivia por estar ligada a máquinas. Estella era uma moça jovem, não merecia estar naquela posição, mas já estávamos conformados com a idéia.

Entrei no quarto 134 e lá estava ela. Encarando o teto, repetindo algo como "meu gato adoraria pegar essas andorinhas verdes". Sentei- me na poltrona, como de costume.

"Já fiquei sabendo" falei depois de algum tempo observando-a "finalmente..."
"É" ela respondeu com naturalidade sem tirar os olhos do teto "não aguento mais esses bichos daqui. Eles querem que eu vá embora, ficam me rodeando. Eu já estou aqui há muito tempo mesmo. Ficam me trazendo contratos para assinar, mas eu tinha prometido a mim mesma que só assinaria quando me trouxessem um que não estivesse amassado. Mas eu desisti. Ia demorar muito até o tal contrato vir, eles não tomam cuidado. Andorinhas! Contei-te do rato que apareceu em casa?"disse mudando de assunto.
"Não, que rato?"
"Entrou um rato na minha casa, mas ninguém conseguiu matar, nem mesmo Fofucho"

Depois disso veio um silêncio constrangedor, longo, denso e de um modo muito estranho, confortante. Após muito tempo Estella suspirou.

"Vão fazê-lo amanhã. Num domingo, meu dia favorito. Fui eu que escolhi a data."
"Legal, eu acho" estava sem respostas. Não sabia o que falar para alguém prestes a se despedir do mundo.

"É. Isso não é vida. Fiquei tempo demais sonhando." afirmou sem muita certeza. Eu queria concordar, mas achei melhor não. Então não disse nada. "Me faz um favor?" disse depois de uma longa pausa, "faça essas coisas para mim? Mas só depois da uma hora da tarde de amanhã." Pegou um papelzinho que estava embaixo do travesseiro e me entregou. Eu não disse nada, e só olhei o papel alguns segundo depois. "Não precisa me responder agora."

Ficamos lá por muito tempo. Conversamos bastante e percebi que as pessoas não mudam mesmo na véspera de suas mortes. Contou-me de Fofucho seu gato, o amor de sua vida e de como ela estava infeliz, sozinha. Assistimos a chuva cair na janela silenciosamente e segurei a sua mão, até que ela adormeceu.

Peguei um papel e uma caneta na minha bolsa e escrevi a resposta para o seu favor. "Adoto seu gato, mato seu rato e lamento muito a sua morte". Dei-lhe um beijo na testa, pus o papel perto do travesseiro. "Vou sentir falta de vir aqui te visitar. Meu sábados não vão mais ter sentido" era a única coisa que conseguia pensar. Saí do quarto, fechei a porta e não olhei mais para trás.

sábado, 19 de julho de 2008

O homem que tinha medo de peixes

Havia um homem que tinha medo de peixes. Seu nome era Tag. Tag não sabia por que tinha medo de peixes. A sua cor indescritível, sua textura nojenta, seus olhos vermelhos de peixe morto - assim como seus olhos arregalados de peixe vivo - ou o seu horrível, horrível cheiro eram apenas pontos bônus na sua lista de "coisas assustadoras".
Tag não tinha amigos, inimigos ou namorada. Sua família - só - não se importava o bastante. Trabalhava na biblioteca local, mas estava pensando em se demitir - ele não gostava de sua chefe, " aquela mulher ridícula, que não sabe nem passar batom!"
Tag era um cara solitário.
Mas na sua casa grande demais para apenas uma pessoa, tinha um gato gordo, ruivo e cego de um olho. O seu nome era Hamster. Oh! Tag realmente amava Hamster! Ele o encontrou um dia, voltando do mercado. Ele estava perdido e sozinho. Foi amor a primeira vista, quer dizer, Tag amou o gato, e o gato amou a garrafa de leite que Tag estava carregando. (E se por acaso você está se perguntando, Tag pensou sim em comprar um hamster de verdade - bem antes dele conhecer Hamster, o gato - ou até mesmo um coelho, mas aquela coisa da gaiola o assustou um pouquinho, afinal, "o que é uma gaiola se não um aquário com buracos?".) Hamster, o gato, realmente achava que era uma hamster, o rato, e adorava correr na rodinha que Tag construiu para ele.
Tag era um cara diferente.
O cabelo de Tag combinava com o pelo de seu gato. Seus dentes, pés e nariz eram grandes demais para o seu corpo magrinho. A pele de seu rosto era coberta de espinhas grandes e vermelhas.
Tag era um cara estranho.
Quando Tag viu um peixe pela primeira vez na sua vida, tinha quatro anos. Ele chorou, ele gritou, ele ficou vermelho e ele desmaiou. Já na segunda tinha quase sete anos e ele chorou e ele gritou. Ele gritou até os seus pulmões desistirem de funcionar. Na terceira ele tinha nove anos, e ele gritou muito. Um grito doentio. Mas agora ele não gritava mais. Ou chorava. Ele só desmaiava. O que era bem mais silencioso.
Tag era um cara problemático.
Mas Tag gostava de sua vida. Ele sempre achou que seus pais podiam ter feito um trabalho melhor com o seu nome, mas isso era okay. Ele achava que a sua rotina fixa era confortável. E, tirando aquele negócio do peixe, Tag achava que era uma pessoa muito normal.
Ele não era.
Mas realmente achava que era.
Em um lindo dia, Tag chegou em casa as 6:18 pm, como normalmente chegava. Encontrou Hamster deitado de barriga para cima perto de sua rodinha, como normalmente encontrava. Ele tinha tido um dia normal. Tudo estava normal. Por isso Tag sentou em seu sofá e chorou. Como normalmente fazia.
Tag queria que tudo fosse perfeito, mas normal era o máximo que conseguia. Então ele chorava todos os dias. Mas ele era "feliz, deprimido não!", porque chorar sozinho no escuro todo santo dia, entre 6:20 e 6:24 pm, sentado ao lado de seu gato com problemas de identidade chamado Hamster, era comum. Não alcançar perfeição era comum também, e se era comum, Tag estava feliz.
Mas naquele dia, algo tinha mudado. Tudo estava normal e ele tinha acabado de chorar, então Tag percebeu que não queria mais aquilo. Tag queria mudar, e estava pronto para isso.
"Sem mais normalidades!"
No dia seguinte, Tag acordou cedo e foi para a loja de animais. Foi uma caminhada corajosa feita por um homem corajoso! O vento frio passando através de suas roupas, suas mãos congelando dentro dos bolsos de sua jaqueta, seu lábio inferior ficando roxo por causa do frio. E o sol mais quente da história nas suas costas. Tag exagerava bastante quando sob pressão. " É só comprar a comida do Hamster, olhar para um peixe ou dois, não desmaiar e ir trabalhar. Só isso! Eu consigo fazer isso." Ele sabia que podia fazer isso - mesmo achando que não podia. Ele achava que tinha o poder.
Ele entrou na loja como alguém normal - e esse era bom - pegou uma lata de comida de gato e caminhou até a "Parede de Aquários". A "Parede de Aquários" era completamente coberta com todos os tipos de aquários, com todos os tipos de peixes dentro deles. A mão de Tag suava, sua testa estava molhada, mas ele sabia que ele podia!
Ele parou na frente da "Parede de Aquários" com seus olhos fechados. Respirou fundo, contou até cinco, jurou para si mesmo que podia e abriu os olhos.
Tag não gostou do que viu. Ele pensou que sempre soube que nunca poderia fazer aquilo. Sua garganta fechou e a sua cara ficou vermelha. Ele não conseguia respirar, mas não ia fechar os olhos. Ele achou que talvez pudesse ter o poder para fazer aquilo. Afinal, por que não?
Tag contou até trinta com os seus olhos arregalados encarando a "Parede de Aquários", pagou pela comida do Hamster e foi para casa.
Aquela foi uma boa caminhada! O sol brilhava, as crianças brincavam! E ele tinha acabado de fazer aquilo. Agora Tag sabia que nunca teve dúvidas sobre a sua capacidade de fazer algo daquele tipo!
Agora ia para casa, dar a comida para o Hamster, ir até o seu trabalho e dizer para a sua chefe que ela era ridícula. E então ele ia se demitir, e.. e.. e ir até "um daqueles lugares nojentos onde as pessoas vão para beber - ou inalar - substâncias alcoólicas e pegar infecções por causa do pote de amendoim comunitário."
Tag não se demitiu, ou chamou a sua chefe de ridícula, pois seriam "muitas atitudes corajosas no mesmo dia". Mas ele pegou um infecção por causa do pote de amendoim comunitário.
Tag era um cara mudado.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Dança de Salão

Uma caixa de lenços. Uma caixa de lenços vazia. Foi tudo o que sobrou. De tudo. Uma caixa bem grandona, tamanho família, branca com florzinhas. Ela está vazia agora, e foi assim que as coisas acabaram.

Tudo começou quando ela me disse que não queria mais. Ela estava encostada no batente da porta do meu quarto, encarando a caixa de lenços como se quisesse queimá-la com a alma. Eu sentada na cama. A caixa ia fazendo "tec-tec" enquanto destacava a aba. As suas palavras horríveis e os meus "tec-tec". Era como uma música.
Ela terminou a sua frase enquanto, com muito esforço eu tirava o primeiro lenço da caixa. Tudo que se ouviu por um instante foi aquele barulho suave de quando se tira um lenço da caixa. Aquele barulho que parece uma onda. Uma chama cresceu em seu olhar.
 
Assoei meu nariz sem fazer barulho. Olhei para ela e disse "Por quê?". Seus olhos passaram a me encarar, mas com o mesmo fogo com que encaravam a caixa de lenço. Admito que fiquei com medo.
 
"Por que o quê?" A cara de surpresa que fazia era inédita. Ela realmente não sabia por que o quê.
"Como assim? Por que isso?" Peguei outro lenço.
"E você ainda pergunta!"
Eu sinceramente não achava nenhum absurdo querer saber por que, de uma hora para outra, ela exigia que eu parasse algo que eu não queria parar! Então eu disse isso para ela.
"Eu não vejo nenhum absurdo em querer saber por que" Peguei outro lenço.
"Você!" Seu dedo ossudo com a unha vermelha apontava em minha direção. Seus olhos queimavam com um fogo demoníaco. Ela guardou o dedo, respirou fundo e murmurou "não sabe de nada."
Aquilo me irritou muito. Quem ela pensava que era, para mandar em mim, não responder as minhas perguntas, ficar brava quando peço explicações e ainda brigar comigo! Só a minha mãe pode fazer isso. Tirei outro lenço da caixa.
"E você é incapaz."
"Do quê?" Seu olhar já era mais desafiador. Tinha os braços cruzados sobre a barriga, me olhava com raiva.
"De tudo! Você não consegue... Não sabe... Faz... Viu! Você é tão incapaz que espalha a sua incapacidade por onde vai, fazendo todos ao seu redor incapazes." Nem eu sabia mais o que estava tentando dizer, mas de acordo com a sua cara, o que saiu não foi bom. Usei outro lenço, e eles começavam a se amontoar do meu lado.
O que aconteceu depois ainda não me é claro. Houve uma longa sequência de palavrões, xingamentos, acenos, lágrimas, gritos e lenços usados.
Eu não entendi o que ela quis dizer com "E você então!" depois que listei todos os seus defeitos, contando-os nos dedos.
E eu me lembro que gritava. Muito. Não sei bem o que, mas bem alto. Ela também. Tentava gritar mais alto do que eu. Talvez vice-versa, mas não tenho certeza.
A grande gritaria acabou com um silêncio súbito. Ela encarava o teto, eu o chão. As duas limpavam o nariz vagarosamente com o lenço. As duas estavam mais leves agora, depois de terem gritado todas as mágoas de uma vida inteira.
"Eu não vou parar as aulas de dança de salão!"
Ela saiu e disse "então encontre uma nova melhor amiga."

Então usei a última folha de lenço de papel. E acabei com uma caixa de lenço. Vazia
(Ganhador do 3º lugar na Jornada Literária 2008 do Colégio Rainha da Paz, categoria Crônica)